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A
Vez dos Meninos
Os
meninos precisam de afeto e atenção tanto quanto
as meninas. Mesmo parecendo mais corajosos do que as meninas,
eles também se sentem frágeis e assustados
JULIANA
ZARONI
Enquanto
as meninas vivem grudadas com bonecas, brincam de casinha,
de fazer comidinha e, por muito pouco, abrem a boca a chorar,
eles driblam a bola, fingem ser o super-herói do momento
e lutam para vencer o mal. Mas, ao primeiro sinal de trovão
durante uma chuva de verão, esse pequeno e invencível
guerreiro pode correr assustado para os braços da mãe,
morrendo de medo do barulho.
Para
o psicólogo inglês radicado na Austrália
Steve Biddulph, de 49 anos, a velha idéia de que meninos
são mais corajosos e destemidos do que as meninas é
um grande equívoco de pais e educadores. Autor do best-seller
"Criando meninos" (Editora Fundamento), que já
vendeu mais de um milhão de cópias de 11 idiomas,
Biddulph afirma que os garotos também choram de medo,
se sentem frágeis e embora sejam mais inquietos e desajeitados,
são tão sensíveis quanto as meninas.
Ele credita o grande sucesso de seu livro a uma grande preocupação
das famílias com seus filhos homens, já que
morrem três vezes mais meninos do que meninas antes
dos 25 anos. A causa das mortes: acidentes e suicídios.
O rendimento escolar dos meninos também é inferior
ao das meninas.
Um
outro fator que, segundo Biddulph, chama a atenção
para a educação dos meninos, é a dificuldade
de expressar sentimentos, que está intimamente ligada
a uma das maiores reclamações das mulheres adultas
em relação aos seus parceiros - a de nunca quererem
"discutir a relação". Segundo ele,
os homens tem uma dificuldade natural - que pode ser percebida
na mais tenra idade - em se comunicar e se relacionar afetivamente.
Presença
do pai
A
velha e conhecida discussão sobre as diferenças
entre homens e mulheres não é de hoje, e, certamente,
influi na educação dos filhos. Para a auxiliar
administrativa Sandra Cristina de Andrade, de 32 anos, mão
de Ana Luísa, de 5 anos, e Bruno, de 12, muitos pais
tem uma tendência a proteger mais as meninas. "As
filhas mulheres, de uma forma geral, recebem mais atenção
do que os meninos. Acho que isso acontece por causa daquela
falsa imagem de "bonequinha" que se cria em torno
das meninas. Já com os meninos, existe o receio de
que, se os pais ficarem mimando muito, o garoto corra o risco
de virar marica. Esse pensamento é absurdo, mas ainda
impera", afirma.
Para
a psicanalista Andreneide Dantas, esse pensamento pode ser
justificado pelo machismo que ainda é dominante na
cultura do povo brasileiro. Mas é taxativa ao afirmar
que os garotos devem receber tanta atenção e
carinho quanto as meninas. "Os meninos também
precisam de afeto, de alguém disposto a conversar com
eles, compreendê-los e, acima de tudo, eles precisam
de pais que desempenhem o seu papel de forma positiva, dando
amor e impondo limites ao mesmo tempo", explica. Outro
equívoco cometido por muitos pais é que meninos
não devem brincar de boneca. "O garoto não
será homossexual por isso. Mas provavelmente será
um pai excelente", afirma.
Para
Steve Biddulph, a grande falha na educação dos
meninos atualmente é a ausência do pai. "A
presença do pai é especialmente importante na
formação dos meninos e da sua masculinidade.
E quando ele estiver entrando na adolescência, eles
também precisarão da ajuda de um homem adulto
que os ajudará a entrar no mundo dos adultos".
Os
pais devem participar da vida de seus filhos brincando e contando
histórias, mas também tendo uma postura firme.
Alguns pais fazem o tipo boa-praça e deixam para as
mães a parte ruim da educação. Envolver-se
nas decisões, supervisionar o que a criança
faz, como, por exemplo, as tarefas, também é
papel do pai. Assim ele estará disciplinado com calma,
conversando, mas com firmeza.
Matéria
Publicada na "Revista Já" - Suplemento do
Diário de São Paulo
Edição de 08/06/2003
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