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DISCURSO
E EFICIÊNCIA NO TRABALHO
Frederico
II, rei da Sicília, ordenou que fossem
trazidos para seu castelo vários recém-nascidos, aos quais
foram prestados todos os cuidados, mas com quem era proibido falar. O
intuito do monarca era saber que língua as
crianças falariam espontaneamente e que
vocabulário teria prioridade:
o hebraico, latim ou o grego. O resultado foi uma surpresa, pois o
primeiro lugar coube à morte, porque a privação da linguagem teve
como consequência o perecimento dos bebês.
Fica
evidente a necessidade da linguagem, do discurso, para o ser humano.
Esta diferença que existe entre nós, seres falantes e os animais, nos
coloca no registro do simbólico, da racionalidade e este fato traz
consequências.
Não
necessitamos apenas de cuidados básicos quanto à função orgânica
mas precisamos estar com outros, olhar e sermos olhados, precisamos do
outro para crescer sadios fisica e psiquicamente. Se não pudermos
contar e ser contados, morreremos. Seja organicamente seja como sujeitos
pensantes e desejantes. Não é raro
encontrarmos indivíduos mortos-vivos que não desejam e não se
responsabilizam por seus atos, que mais se assemelham a
marionetes manipulados
pelos meios de consumo. Aqui, o capitalismo oferece todas as formas de
gozo – acreditando que determinado objeto os completará trazendo a
felicidade. Através dessa forma de gozar pretende dar ao sujeito
o que ”ele precisa ”
produzindo vícios e em
contrapartida oferecendo os ”paliativos”
através de uma numerosa oferta: remédios, vitaminas, drogas, álcool,
cirurgias, spas
etc. Sistema perverso que cria o vício e fabrica o remédio para
continuar enganando o sujeito.
A
linguagem que nos torna humanos é também o que distancia as pessoas
que cada vez mais preferem a companhia dos bichos à dos semelhantes.
Diariamente encontramos pessoas
desimplicadas do que dizem,
eximindo-se de responsabilidade pelos males que lhes acontece e aqui,
neste lugar da não responsabilização pelos atos,
abre-se a porta para uma grande demanda de manuais de auto-ajuda,
esoterismo, regressão a vidas passadas, penduricalhos
energizantes etc. Qualquer alternativa
que permita entregar a outros a decisão sobre suas vidas.
Em
uma empresa acontece algo semelhante pois esta precisa ouvir seus
funcionários senão eles perecem.. Morrem tecnicamente, não avançam,
não crescem e não produzem, ficam estagnados na mesma função e isto
os leva do stress aos sintomas orgânicos, tão comuns e que são
irresponsavelmente diagnosticados como ”peripaques”.
Estes
sintomas correspondem à morte do desejo e a morte do desejo traz malefícios
tanto para o funcionário quanto para a empresa, já que esta poderá
ter investido em treinamentos, salários, benefícios e não obterá em
retorno, um profissional adequado às expectativas do cargo.
São
conhecidos os casos de profissionais competentes, eficientes que,
justamente pela qualidade de seu
trabalho, são contratados por outras companhias que lhes oferecem ótimos
salários, benefícios, viagens. No entanto, depois de algum tempo,
descobre-se que ”aquele” profissional
não está ”rendendo” para
a empresa. Fica
estabelecido um impasse porque os dirigentes não sabem o que fazer, nem
compreendem o motivo do baixo rendimento do profissional. Por que
algumas pessoas se ”adaptam” melhor numa
empresa do que em outra?
Por
que apesar das boas condições de trabalho oferecidas, um profissional
capacitado não consegue mostrar seu melhor desempenho?
Motivos
inconscientes são fortes determinantes do sucesso ou do fracasso de
cada um. O sujeito precisa falar daquilo que o incomoda, dos empecilhos
que detêm sua marcha, precisa resgatar trechos perdidos de sua história,
para então poder se desenvolver integralmente
e alcançar o sucesso.
Assim
como no exemplo dos bebês, entendemos que a linguagem - o discurso - é
fundamental para sustentar o desejo de alguém,
para continuar vivendo e produzindo.
Se a companhia investe
muito em capacitação, salários e instalações luxuosas e esquece de
investir na humanização de seus funcionários, tem como retorno, o
pior. Hoje em dia, o estresse provocado pelo excesso de tarefas aliado
aos problemas pessoais,
provocam sérios transtornos orgânicos que
afastam os profissionais do trabalho
tornando-os dependentes de remédios, drogas e álcool. O ”
saldo” é muito dinheiro gasto com tratamentos, licenças do
trabalho e acidentes provocados dentro e fora da empresa.
É
preciso então, criar condições que permitam aos
funcionários produzir
discurso e possibilitar tratamentos que os levem a falar de sua história
singular. Assim, estes sujeitos poderão desfazer os ”nós”
que os atrapalham tornando-se
sujeitos capazes de realizar mais. Isto será revertido em ganho para a empresa e para o funcionário , pois
profissionais saudáveis trabalham com mais disposição sem
”precisar” adoecer.
Andreneide
Dantas - Psicanalista
Diretora da
Clínica Escuta Analítica
Coordenadora
de Cursos do Instituto Tempos Modernos
Credenciada dos PAPS
Joaceri
Merlin - Psicanalista
Diretora da Clínica Escuta
Analítica
Coordenadora
de Cursos do Instituto Tempos Modernos
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