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Terceridade e o Tempo... em tempo
Fragmentos
do que escuto, seja na clínica ou fora dela.
"Não
tenho mais tempo, minha vida é um declínio".
Freud
(1915) "Se queres suportar a vida prepara-te
para a morte".
É impossível imaginar nossa própria morte.
E, quando a imaginamos estamos presentes como espectadores
e não como atores principais desta ficção
que é a vida. Pois, no inconsciente, cada um de nós
está convencido de nossa própria imortalidade.
O que está em jogo é o viver a vida, onde muitas
das vezes esse viver a vida é experimentado como um
pesadelo, como algo muito sofrido. Sofrimento esse que o indivíduo
ao dizer: "não tenho mais tempo, minha vida está
chegando ao fim", proporciona um fechamento, restringindo
sua existência, neutralizando suas possibilidades de
expansão.
O homem nasce desamparado. Temos que permanecer nesse estado
de desamparo? Temos que permanentemente nos sentirmos mal
em todos os momentos de nossas vidas? Temos que, perto do
fim - e quando é o fim? – nos sentirmos mal?
Ou podemos trabalhar o mal estar- estrutural e transformá-lo.
Já que existem diferenças, rupturas, outros
tempos, ritmos e intensidades várias. Leonardo da Vinci
começou a desenvolver sua genialidade ainda jovem,
em Florença. Só aos 54 anos, contudo,criou a
Mona Lisa, sua mais célebre pintura. E também,
muitos escritores atingem o auge de sua carreira justamente
no fim da vida.
Acontecimentos vários ocorrem na vida de qualquer ser
humano. Podemos fazer outras relações com esses
acontecimentos ou vamos manter com eles uma relação
de sofrimento restritivos? Pois cada acontecimento, no seu
tempo, é sinal de atividade, movimento, transformação
que pode provocar produção e criação
de outras possibilidades. A questão é podemos
ordenar as crises, ordenar o caos? Podemos fazer das crises,
dos caos começo de algo e não seu fim?.
Freud em "Inibições, Sintomas e
Angústia" fala da angústia e diz
que a angústia está em relação
ao desamparo infantil. Uma mulher de 80 anos que vai a uma
entrevista se angustia em estar comigo e sua filha de, mais
ou nemos 50 anos estar na sala de espera. E ela me pergunta:
"Minha filha pode estar aqui comigo?"
Pergunto porque quer que sua filha esteja ali. Ela diz que
a filha deve estar se sentindo mal por estar se sentindo só.
A esse Outro, Lacan dirá que a criança atribui
um saber totalizante acerca de seus pensamentos. E esse Outro
cai no momento em que a criança descobre que não
conhece seus pensamentos. Momento este constituitivo do inconsciente.
Esse "ele não o sabia" infligido, aplicado
ao Outro transforma esse Outro em um Outro atravessado pela
barra. Esse Outro castrado, barrado é o lugar de onde
advém o desejo.
Em nossa cultura podemos constatar que a ciência, a
sociedade, de modo geral tenta reduzir as diferencas através
de meios de apropiação totalizante. E esses
mecanismos de apropriação bloqueiam os processos
de singularização.
Processos esse de singularização que os asilos,
orfanatos e a maioria das nossas instituições
tentam apagar e, muitas das vezes conseguem apagar. Seja calando
a voz do idoso, da criança. Sufocando e impedindo a
sexualidade do idoso.
Freud no texto "Simbolismo das fezes e ações
oníricas", trabalha a substituição
do prazer sexual pelo excremencial. E diz que quando há
esta substituição é por falta de um objeto
sexual apropriado. Por fazer calar a sexualidade, por fazer
calar o desejo sexual, o homem regride a uma etapa anterior
ao erotismo genital que é o erotismo anal. E, Freud
continua, os sonhos de defecação podem assim
ser também sonhos de impotência. Para um homem
que não pode mais copular, diz o povo com seu grosseiro
amor pela verdade, ainda resta o prazer de cagar.
Outro fragmento clínico: "Quando a minha
mãe morreu minha vida declinou".
Continuando
a viagem, através do tempo com Freud. No texto "Nossa
atitude para com a morte", vol.XIV, a morte é
o resultado necessário da vida. Qual á a atitude
do nosso inconsciente para com a morte? Nosso inconsciente
não crê em sua própria morte; comporta-se
como se fosse imortal".
O medo da morte que nos domina com mais frequência do
que pensamos é, via regra, o resultado de um sentimento
de culpa. A expressão "Que o diabo o carregue",
que tantas vezes aflora os lábios das pessoas em tom
de brincadeira e que, na realidade, significa "Que
a morte o carregue", é em nosso inconsciente
um sério e poderoso desejo de morte.
Caso sejamos julgados por nossos impulsos inconscientes impregnados
de desejos, nós próprios seremos como o homem
primitivo, uma malta de assassinos.
Apenas as crianças desembaraçam-se bem ameaçando
umas às outras com a possibilidade da morte. Chegando
inclusive ao ponto de fazer a mesma coisa com alguém
que amam. Como por exemplo: "Querida mãezinha,
quando você morrer eu farei isso ou aquilo".
Esses seres amados, por um lado, são familiares ao
nosso ego, e por outro lado são estranhos e até
inimigos.
Escutamos tanto na clínica quanto fora dela seres humanos
exageradamente preocupados com o bem estar dos parentes ou
com auto recriminações inteiramente infundadas
após a morte de uma essoa amada.
Em suma: nosso inconsciente é tão inacessível
à idéia de nossa própria morte, tão
inclinado ao assassinato em relação a estranhos,
tão divididos para com aqueles que amamos como era
o homem primitivo.
A guerra rouba, priva os acréscimos, os avanços
da civilização e coloca em ato o homem primitivo
que existe em cada um de nós. Leva-nos mais uma vez
a sermos heróis que não podem crer em sua própria
morte; estigmatizando os estranhos como inimigos cuja morte
deve ser provocada ou desejada.
Foram heróis, por exemplo, os responsáveis pelo
asilo Santa Genoveva que ao abandonarem, ao desampararem os
velhos que lá estavam lucraram à custa de suas
mortes.
Nos diz Freud, não seria melhor dar á morte
o lugar na realidade e em nossos pensamentos que lhe é
devido, e dar um pouco mais, de proeminência a atitude
inconsciente para com a morte, que, até agora, tão
cuidadadosamente suprimimos?.
Pacientes que chegam ao consultório com o discurso
que nada mais resta fazer do que esperar a morte esquecem
que o tempo dá justamente a presença do acontecimento.
Estes pacientes se implicando naquilo que dizem, se implicando
no tempo do inconsciente, no tempo de abertura do inconsciente
– que é um tempo relâmpago onde surge o
desejo – podem fazer outra coisa do que simplesmente
esperar o tempo . Por exemplo, entrando na era da informática
acrescentando além de um dinheiro a mais na sua parca
aponsentadoria, uma produção na sua vida.
Muitas vezes os idosos sentem-se inaptos para os tempos modernos,
afastando-se do convívio social. A segregação
progressiva leva a um completo isolamento. E, se não
se mata o desejo antes da morte chegar, é possível,
nestes tempos modernos, fazer laços, laços sociais.
Neusa
Lais Coelho
Psicanalista - Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho apresentado na Palestra "Sexualidade Feminina"
em 24
de maio de 2002 no Instituto Tempos Modernos - SP
Tel:
(0**21) 2236-0563 - Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br
OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21)
2714-8502 / (0xx21) 2704-0060
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