| Sonhar
é preciso
Mais de 100 anos depois da psicanálise de Freud, pesquisadores
afirmam que sonhar é uma necessidade biológica,
capaz de indicar também como funciona a memória
humana
Sonhar é essencial à vida. Sem o sonho, morreríamos.
A frase poderia ser creditada a um poeta ou a um escritor,
mas é do pesquisador Sérgio Tufik, diretor do
Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp). Longe de demonstrar uma queda pela filosofia, a
afirmação reflete a importância que os
cientistas dão para os estudos dos mistérios
que se revelam no sono nosso de cada noite. Para se ter uma
idéia, a constatação de Tufik, embora
pareça mais um dos devaneios sobre a alma humana, é
puramente científica. Sim, já se sabe que sem
a fase dos sonhos durante o sono, nós literalmente
morreríamos.
Tudo acontece
por uma combinação muito bem equilibrada. A
cada noite, um adulto passa por até cinco ciclos de
sono. Cada um deles tem estágios que vão do
sono leve até a chamada fase REM, abreviação
em inglês que significa “movimentos rápidos
dos olhos”. Nesse período, boa parte do corpo
está paralisado, mas alguns músculos e os olhos
se mexem continuamente. De acordo com Tufik, 99% dos sonhos
acontecem durante esse estágio. “Se uma cobaia
fica 20 dias privada de sono REM seu organismo entra em colapso
e ela morre.
Acreditamos
que o mesmo aconteça com os seres humanos”, explica.
Os motivos
que levam o ser humano a sonhar e qual a função
dos sonhos na nossa vida, no entanto, ainda não foram
desvendados. Mas o estudo dos sonhos revelou, por exemplo,
o fato de que temos uma consciência, quando estamos
acordados, e outra, que parte dos especialistas prefere chamar
de não-consciência, quando dormimos. É
nessa hora que a nossa memória entra em prática,
colocando em seqüência uma série de situações
que vivemos durante o dia. “Toda informação
é memorizada”, explica César Timo-Iaria,
professor de Fisiologia da Universidade de São Paulo
(USP) e uma das maiores autoridades do país no assunto.
“Por isso, muitas vezes, uma pessoa acha que sonhou
com alguém que nunca viu, o que é muito improvável.
Em geral, ela pode ter visto essa pessoa no Metrô ou
no ônibus e guardou a informação na memória”,
completa o pesquisador.
Por que
durante o sono nossa memória elege esta ou aquela informação
para compor o capítulo dos sonhos, ninguém sabe.
Segundo Timo-Iaria, podemos ver uma foto da nossa infância
(ou que remete a essa época) pela manhã, por
exemplo, e sonhar com um parente que já morreu, mas
era muito presente nesse período. Tudo por conta da
memória, sem nenhuma relação interpretativa.
“Isso não significa nada. As pessoas acham que
só os seres humanos sonham e que se trata de uma atividade
intelectual muito elevada. Na prática, todos os bichos
sonham e trata-se de uma atividade neural muito primária”,
garante.
Discussão
É nesse momento que, muitas vezes, cientistas e psicanalistas
entram em conflito. Para Sigmund Freud (1856-1938), os sonhos
revelam o desejo infantil do indivíduo, tão
secreto e profundo que apareceria sob a forma de símbolos
e nunca viria à tona para o consciente. Quando lançou
o livro A Interpretação dos Sonhos, em 1900,
o pai da psicanálise afirmou que não é
por acaso que as pessoas lembram de um determinado fato e
preferem esquecer outros. Isso explicaria, portanto, porque
o indivíduo escolhe, mesmo que de forma inconsciente,
sonhar com o chefe e não com a namorada.
Analisar
os sonhos seria, então, uma maneira de lidar melhor
com os problemas do dia-a-dia que afetam a maior parte das
pessoas no trabalho, na vida social e afetiva.
Sonhos
revelam comportamento
Na
contramão de muitos pesquisadores, especialista do
Instituto do Sono afirma que os sonhos não podem ser
encarados apenas como uma série de imagens sem importância
e simbolizam nosso reflexo no espelho
Existe
uma relação direta entre os sonhos e o nosso
comportamento? Embora para a psicanálise a resposta
para essa pergunta seja simples, muitos pesquisadores que
estudam os mecanismos cerebrais dos sonhos refutam a idéia
de que essas imagens ou sons possam ter ligação
com nossos atos diários. Para Sérgio Tufik,
diretor do Instituto do Sono, no entanto, a teoria é
muito plausível. “O sonho é um espelho
que nos reflete”, afirma Tufik. “Estudamos cada
vez mais todos os mecanismos neurológicos, mas acredito
que o sonho pode refletir nossos conflitos, angústias
e ansiedades”, completa.
Sendo
assim, trata-se de partir exclusivamente para a análise
terapêutica? Segundo Tufik, o importante é unir
especialidades. “Acredito no meio termo. Hoje, falamos
na psiquiatria biológica, ou seja, estudamos os sonhos,
mas sabemos que essa memória não está
ali por nada. Se você brigou com seu chefe vai levar
esse conflito para o sonho”, lembra.
A
psicanalista Andreneide Dantas, do Instituto Tempos Modernos,
acredita que a análise dos sonhos tem participação
importante no desenvolvimento do indivíduo. Segundo
ela, nem sempre os medicamentos são capazes de resolver
um problema que pode estar diretamente ligado ao emocional
e, pelo menos até agora, essa é a lacuna nas
explicações científicas dos circuitos
cerebrais.
Para exemplificar
isso, Andreneide lembra de vários pacientes com depressão.
“Já se sabe que a depressão está
ligada a baixa do neurotransmissor serotonina.
Atualmente,
muitas drogas são capazes de restabelecer esses níveis”,
explica. “Mesmo assim, muitos pacientes que tomam esses
medicamentos continuam em depressão. Então,
eles mesmos podem estar produzindo essa reação
no organismo”, revela.
Para ela,
essa foi a grande descoberta de Freud ao analisar os sonhos.
“Quando uma pessoa conta seu sonho, mesmo que ela afirme
não lembrar, vai revelar coisas que ela não
falaria de forma consciente”, acredita a psicanalista.
“Por isso, o mais importante é esperar o paciente
explicar seu sonho e não anotar”, diz.
Pesadelos
Para
César Timo-Iaria, professor de Fisiologia da Universidade
de São Paulo (USP), essas explicações
não têm sentido. Segundo ele, os sonhos não
são recheados de significado e a Ciência está
comprovando isso. Por exemplo, já se sabe que a famosa
sensação de estar caindo que muitas pessoas
associam com o sonho, nada mais é do que o desligamento
de nosso equilíbrio, organizado pelo labirinto. O corpo,
nesse caso, percebe que o sistema é desligado e provoca
essa sensação de queda.
O
mesmo aconteceria com os pesadelos. “O pesadelo nada
mais é do que o sonho ameaçador”, diz
César. Um dos exemplos comuns de pesadelo acontece
em pacientes com um distúrbio do sono chamado apnéia,
explica o especialista. Caracterizada pela baixa oxigenação
do sangue, a apnéia provoca a sensação
de sufocamento. Os pacientes que sofrem com o problema costumam
acordar várias vezes durante à noite de forma
súbita. “Muitas vezes, essas pessoas têm
um pesadelo, que vai provocar uma série de alterações
no organismo até que elas acordem”, explica o
especialista.
Sonhos
para ter saúde
A fase REM do sono, em que aparecem a maior parte dos sonhos
durante a noite, também é fundamental para o
bom funcionamento do organismo. Veja o que os cientistas já
sabem sobre esse estágio:
O sono
REM (movimento rápido dos olhos) reforça o sistema
imunológico. Quem dorme bem essa fase dos ciclos do
sono tem menos gripes e resfriados e é menos suscetível
às infecções.
A
pressão arterial também é modificada
nessa fase. Nos hipertensos, a pressão apresenta alterações
nesse estágio.
Regiane
Monteiro
Matéria publicada no Jornal
"Diário de SP"
Cadervo "Viver em Família" em 03/11/2002
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