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Psicossomática:
A psicanálise se ocupa do sujeito
que a ciência deixa de lado, presta atenção àquilo que
o médico não escuta. Não medimos taxas no sangue, não
radiografamos ou diagnosticamos, mas escutamos o que
o sujeito tem a dizer sobre esse corpo manipulado, enlouquecido
por uma doença que resiste aos medicamentos. Doenças
nas quais muitas vezes a medicina não encontra um “sentido”.
Quando o indivíduo nasce, ele tem um organismo, um corpo despedaçado, um
conjunto de órgãos que só através da linguagem vai ter estatuto de
unidade corporal.
Este corpo a que me refiro, é um corpo que precisa do outro
estruturado como um discurso para que este corpo de carne
se transmute em corpo simbólico.
O sujeito, antes de nascer, já existe. Está na palavra mesmo
antes de ter um corpo e continua a existir depois de
sua morte, quando não tem mais um corpo. Isto é possível
porque a duração do sujeito está sustentada pelo significante.
É a linguagem que permite uma margem além da vida.
Precisamos esquecer que temos um corpo para não enlouquecer.
Não ficamos escutando as batidas de nosso coração, medindo
a pressão ou sentindo a respiração - salvo os hipocondríacos.
Mas o que acontece aos pacientes que apresentam as doenças chamadas
“psicossomáticas” ? Doenças cuja etiologia não são explicadas?
Aqui os transtornos orgânicos fazem os órgãos presentes, existe
um retorno do auto-erotismo que exclui o gozo da palavra.
Sabemos que no auto-erotismo - como já está dito - o
sujeito prescinde do outro como semelhante, tem um auto
gozo, gozo no próprio corpo. Quantos de vocês já devem
ter escutado de pessoas que sofrem de “doenças psicossomáticas”
: “Esta doença me acompanha há tantos anos”; e fica como
única companheira mesmo. Ou então: “Carrego comigo esta doença
há dez anos “. E esta paciente precisava ficar trancada em
um quarto escuro durante três dias, longe do marido e filhos.
Muitas vezes uma doença, assim como também uma droga, toma
o lugar do parceiro sexual. O sujeito não goza sexualmente
com o semelhante, mas com a doença ou com a droga que
ingere. Asma, úlcera, alergias, obesidade, transtornos digestivos,
tumores e hemorróidas. Nesta lista incluem-se também
anorexia, epilepsia, diabetes, psoríase, etc.
Existe uma vasta relação de doenças que estão intimamente
ligadas ao que o sujeito deixa de falar, com a renúncia
de seu desejo. O que não é dito faz escrita no próprio
corpo. Obstruindo uma veia, destruindo um órgão, abrindo
feridas ou descamando a pele do corpo. Feridas que mostram
que as coisas não vão bem, que algo não está sendo dito,
em palavras.
A psoríase por exemplo, dá a ver , não para ler mas para mostrar
e angustiar ao outro. Aqui o gozo não fica reservado
às zonas erógenas, mas mete-se no corpo, corporifica-se
fazendo a lesão. Escreve no corpo algo que é da ordem
do número, um grito, uma escrita que parece ilegível.
Mas o analista com seu desejo pode escutar e possibilitar
ao paciente que ele coloque em palavras o que está incrustrado
em sua carne.
Os pacientes com “doenças psicossomáticas”, geralmente têm
outros casos na família, mas não é comprovado que são
transmitidos geneticamente. Constatamos que são transmitidos
pelo discurso. Às vezes é uma forma, ou a única forma
de identificação ao pai. Exemplo de uma paciente que,
tendo desconfiança que era filha adotiva, faz
uma psoríase, como sua avó paterna.
O analista não aborda os órgãos nem o organismo ou a enfermidade.
O único que trata é do discurso . Presta atenção ao sujeito,
ou aquilo, que do corpo o representa. Não se ocupa de
“fenômenos psicossomáticos”, mas, de significantes.
É preciso escutar o paciente e conduzir a cura até a abertura
de um espaço onde o que é resposta fixa -- “doença psicossomática”
- transforme-se em uma pergunta sobre seu desejo. Só
assim o paciente pode colocar seu sofrimento no discurso,
e não mais atribuir ao destino o que lhe acontece.
Podemos com nossa escuta oferecer um lugar e um tempo para
que o sujeito faça dessa letra, desse número inscrito
em sua carne, letra discursiva. Que isto possa aparecer
nos sonhos, lapsos e esquecimentos, que possa transformar-se
em palavras, em um dito o que está preso em um grito.
Andreneide
Dantas
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