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Sobre
Problemáticas da Educação Infantil
É
fato que a educação não é uma
tarefa fácil, se fosse não estaríamos
hoje aqui reunidos pra falar do assunto.
Hoje
em dia, a modernidade oferece todo um aparato técnico
para que os pais e os professores frente a problemáticas
educacionais recorram a eles a fim de solucionar problemas,
que vão da gagueira, troca de letras, às dificuldades
na aprendizagem escolar, repetência, etc.
Geralmente
acreditam que a dificuldade que o filho enfrenta, diz respeito
apenas a um dado isolado, muitas vezes rotulando-o de "preguiçoso,"
"traquina" ou "mal-educado." Sem saber
o que acontece, entregam seus filhos aos profissionais e demandam
que os devolvam curados.
É
pelo fato de falarmos, que nos diferenciamos do animal, e
justamente porque falamos pagamos caro por isso. Pagamos com
a angústia de viver que é comum a todos, pagamos
com os sintomas, quer sejam: depressão, solidão,
stress, alcoolismo, dependência de drogas, ou muitas
vezes dependência a um namorado, marido ou aos pais.
Enfim, muitos conflitos, medos e ansiedades.
A
infância, ao contrário do que muitos pensam,
não é um paraíso sem angústia.
As crianças também sofrem com seus sintomas
e a resposta a eles aparece geralmente no momento da aprendizagem
escolar.
Quando
as crianças não conseguem aprender, são
marcadas e rotuladas com selos que os diferenciam das demais,
marcas que vão desde "criança especial"
- e os colocam em uma classe diferenciada do ensino normal,
acreditando que só podem estar juntos com outras crianças
que também "não podem" inserir-se
no ensino comum - a agressivos e problemáticos, e não
é raro quando etiquetam uma "deficiência
mental".
Desde
antes de nascer uma criança já existe, ela já
é falada, os seus pais lhe reservam um lugar, inscrevendo-a
na história. Vai ser menino ou menina, vai se chamar
João ou vai se chamar Maria, vai ser médico,
professor ou mecânico como o pai. Portanto, muito antes
de nascer já é tecida uma história para
o sujeito.
Desejada ou não, o que conta é a categoria do
desejo, não em relação a ela (criança)
mas ao desejo de seus genitores (pais).
Quando
vem ao mundo, muitas vezes o bebê, transtorna tudo o
que havia sido previsto para ele. Ao existir em carne e osso,
escapa a imagem que seus pais tinham feito para ele, este
ponto de real é tão comovedor que muitas mães,
depois da alegria do parto, sentem a dor de uma grande perda
. "Um vazio" como disse uma mãe.
Não
é suficiente para uma criança estar inscrita
no registro civil para receber o valor da vida: é preciso
que algo garanta seu nascimento. A adoção de
seus pais onde o reconheça como filho, inscrevendo-se
como pais. A causa primordial de sua angústia se deve
a que ela também se encontra desprovida de meios para
compreender o porquê de sua vinda ao mundo. "Me
querem?" "Me adotaram?" "Me amam?".
Se perguntam. Apelam a legitimidade de sua existência
com os meios que dispõe: seus gestos, suas mímicas,
seu choro ou suas doenças. Há um fato que é
o nascimento de alguém, este ato é real, existe
um corpo biológico, mas este corpo precisa ser introduzido
no sistema simbólico, e preciso que reconheçam
esse corpo vivente para que ele exista enquanto indivíduo.
Como
já disse antes, a infância não é
um paraíso, e a vida de um sujeito não começa
na adolescência como acreditam muitas pessoas. A infância
é determinante na vida do sujeito, os primeiros anos
de vida são os mais importantes, em termos de estruturação
do sujeito. Quando crescem, os adultos repetem em suas relações
de amizades, trabalhos e amorosas, a relação
que tiveram com seus pais.
Portanto,
no momento do nascimento de um filho, os pais revivem sua
história com seus pais. Um homem e uma mulher quando
se encontram, cada um já traz a marca de sua história
infantil, a marca dos seus primeiros anos de vida.
É
comum, muitas pessoas não lembrarem dos primeiros anos
de vida, mas mesmo assim repetem com seus filhos o que viveram,
mesmo sem se darem conta disto. A maternidade traz para a
mulher a revivência de sua relação com
sua mãe, o momento da passagem de filha para mãe
é decisivo e muito importante para uma mulher. Assim
como é muito importante o momento da paternidade para
o homem. Quantos de vocês já ouviram falar de
mulheres que enlouqueceram no momento do parto (psicose
pós - puerperal) ou homens que se entregam a bebidas
ou a drogas. Isto acontece por não poderem suportar
esse momento de revivência de experiências infantis.
Outras
mulheres, amam tanto seus filhos a ponto de não suportarem
a idéia de que vão crescer e deixar de ser seus
bebês. Criam seus filhos como se fosse a boneca que
não tiveram na infância. Muitas vezes são
elas que não conseguem se desligar da relação
com o filho, como não conseguiram se desligar da relação
infantil com a mãe. A mãe de um paciente diz:
"Não consigo tomar uma decisão em relação
a meu filho, se minha mãe não aprovar antes".
Outro
paciente diz: "Não consigo esquecer as brigas
que meus pais tinham quando eu era criança e muitas
vezes grito com meus filhos e digo para eles o que escutei
de meus pais".
Existem
crianças com queixas de dificuldades emocionais e retardo
na aquisição da linguagem, filhos de mães
que mesmo seu filho com 5 ou 7 anos não deixam que
tomem banho sozinho ou que faça sua alimentação
sem sua ajuda.
Para
essa mãe, seu filho ainda é um bebê e
portanto ele vai se comportar como tal. Como então
a criança vai ser independente em suas primeiras tarefas?.
Quando
disse que nos diferenciamos do animal por falarmos e pagamos
por isso, me refiro a que o ser falante é sempre pré-
maturo. Um animalzinho quando nasce (a maioria) em
poucas horas levantam-se e vai procurar alimento. Nós
seres falantes dependemos sempre que Outro cuide,limpe,e alimente.
E a vida do sujeito vai ser marcada por estas primeiras experiências.
Nem
todas as crianças são alfabetizadas, ou tem
controle e maturidade motora com a mesma idade, portanto não
é só o biológico que conta, é
o desejo dessa mãe que está em jogo, o discurso
familiar. Quando falo do desejo não falo do "quero
que isto aconteça" ou "tomara que aquilo
não ocorra". Desejo, é algo que é
comum a todos, mas é do que às vezes não
temos quase controle, e conhecimento porque ele é inconsciente.
Portanto quando os pais repetem com seus filhos o que viveram
com seus pais, isto não se passa pela intenção,
mas "pelo não poder fazer de outra forma".
Acreditam nisto, ignoram justamente que porque falamos, sempre
podemos fazer de outra forma.
A
história de cada um não é um destino
implacável, coagulado no "estava escrito",
ou é "o destino".
Uma
paciente diz: "meu filho é meu carma'; outra
disse: "é a cruz que tenho que carregar,"
falando de um filho doente, que foi muitas vezes internado,
manipulado, que teve seu corpo cortado por várias cirurgias.
Esse corpo biológico não tinha sido inscrito
no simbólico, não passava de um conjunto de
orgãos. No momento que esta mulher se deu conta de
seu desejo, de que "não queria que seu filho
nascesse", pôde reconhecê-lo como um
filho nascido, reconhecer seu desejo e não como um
"morto-vivo". Seu filho pôde então
entrar no sistema simbólico, ter registro de indivíduo,
pois antes era apenas vivente.
Quando
falo do desejo da mãe, não é por fora
do desejo do pai, já que existe um casal, e os dois
claro, tiveram sua infância. E para uma mãe só
é permitido fazer um desligamento se o pai (pai
da criança) possibilita isso. É fundamental
sua presença, sua lei.
O
sintoma da criança muitas vezes está na posição
de responder ao que existe de sintomático na estrutura
familiar. Sintoma este que vai desde afecções
somáticas (alergias, rinites, bronquites, obesidades)
à dificuldades na aprendizagem escolar, problemas de
linguagem, ou crianças que o mundo para elas parece
não existir, que são as crianças chamadas
autistas.
Essas
crianças diagnosticadas de autistas são crianças
que a medicina até hoje busca a causa, mas que não
a encontram. A mãe de uma criança diagnosticada
como autista leva-o ao consultório, quando é
perguntado sobre se percebeu que o filho não olha para
ela .Responde: "Não". Essa criança
não tinha o olhar dessa mãe, então como
poderia existir?.
O
fracasso escolar é um sintoma que faz mal-estar na
sala de aula, mal-estar na criança, mal-estar na sua
família , mal-estar na cultura. É cobrado de
uma criança que responda ao que o meio, ao que a educação
lhe impõe, tendo que se ajustar à normas, e
quando algo interrompe isto, são rotuladas de não
inteligentes ou debéis-mentais.
Todo
sintoma é um ato, o sujeito em lugar de dizer, faz.
Portanto
existe algo que é comum a todos, que é a função
da palavra, mas não é comum a todos a prática
da função da palavra. Quando alguém em
análise pode dizer diferente, faz mudanças em
sua vida.
Se
uma criança tem problemas, é necessário
que seus pais se perguntem o porquê isto acontece. Se
perguntando, se dando conta de como agem assim ou de outro
jeito, podem fazer diferente.
É imprecindível que o psicanalista seja chamado
a estar trabalhando junto aos lugares onde a criança
esteja. Escutando as famílias , a escola no hospital
etc.
Andreneide
Dantas
Psicanalista
Palestra proferida em São Caetano do Sul
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