| Pais
Devem Brincar Mais com os Filhos
Os
meninos precisam de afeto e atenção tanto quanto
as meninas. Mesmo parecendo mais corajosos do que as meninas,
eles também se sentem frágeis e assustados
JULIANA
ZARONI
Os
filhos devem estar sempre em primeiro lugar na escala de preocupações
de seus pais, segundo o psicólogo Steve Biddulph. Embora
fundamental no desenvolvimento dos garotos, a presença
do pai, infelizmente, tem estado um pouco apagada nas famílias
devido ao excesso de trabalho.
A design
de interiores Renata Grillo, de 29 anos, mãe de Lucca,
de 2 anos, sabe que o papel do pai é tão importante
quanto o da mãe na educação dos filhos.
“Acho que meu marido poderia participar mais da educação
do Lucca, mas com a rotina e as muitas horas de trabalho fica
difícil, o tempo que sobra é pouco. Quem acaba
participando mais das coisas e dando as ordens, sou eu”,
diz.
Os garotos
precisam da presença paterna. Mas, acentua a psicanalista
Andreneide Dantas, quando por algum motivo o pai não
está presente, a mãe deve de alguma forma lembrar
a figura paterna. “Mesmo que o pai não esteja
presente, ele deve ser lembrado. O menino sempre terá
uma referência masculina em quem vai se espelhar, pode
ser um tio ou o avô”, afirma.
Para Biddulph,
a referência masculina é fundamental para que
os garotos desenvolvam suas potencialidades. As meninas também
são beneficiadas, pois é por meio do convívio
com os pais que desenvolvem a auto-estima e têm sua
inteligência e autoconfiança estimuladas. “Os
pais precisam chegar em casa a tempo de brincar, rir, ensinar
e principalmente 'curtir' os filhos”, diz.
Testosterona
“Criando Meninos”, fala de um outro aspecto do
desenvolvimento dos garotos, mostrando como a testosterona
(hormônio masculino), influencia no funcionamento do
cérebro.
Aos 4
anos de idade, os garotos recebem uma súbita onda de
testosterona que fará com que eles se tornem muito
mais interessados em heróis e aventuras. Aos 5 anos,
esse nível de hormônio cai pela metade e eles
ficam mais calmos, mas não o suficiente. Biddulph acentua
que é justamente nessa época que se inicia a
vida escolar das crianças.
“Aos
5 ou 6 anos, quando estão se iniciando na escola, o
desenvolvimento dos meninos é, freqüentemente,
12 meses mais lento que o das meninas, em especial em áreas
como controle da motricidade, linguagem e sociabilidade. Isso
ocorre porque os meninos têm menos conexões entre
os hemisférios direito e esquerdo do que as meninas”,
afirma.
A médica
Rosana Pires, de 36 anos, mãe de Pedro, de 7 anos achou
melhor retardar o início da vida escolar de seu filho
até que o sentisse preparado para, principalmente,
evitar um baixo rendimento escolar. “Percebi que o Pedro
não estava pronto para entrar na escola aos 5 anos,
conversei com algumas psicólogas e decidi, juntamente
com meu marido, esperar um pouco mais. No ano seguinte, senti
que ele estava bem mais tranqüilo”, acredita.
Para
Biddulph, respeitar o tempo de amadurecimento dos meninos,
que é mais lento, é essencial para que eles
se desenvolvam de forma saudável. “Educadores
têm observado que os meninos têm um desempenho
baixo na escola e são responsáveis por cerca
de 90% dos problemas de comportamento e 80% dos casos de dificuldades
de aprendizagem. Podemos criar homens fortes e amorosos se
nos propusermos a compreender sua natureza.”
Entrevista
- “Temos hoje a geração com a maior falta
de pais que já houve na história”
O inglês Steve Biddulph é psicólogo há
25 anos. Ele acredita que terapia não basta para fazer
alguém mudar de vida porque só alcança
gente rica. Resolveu então escrever livros simples
para socializar o conhecimento. Conversou com 100 mil pais
e reuniu suas idéias em best-sellers como “O
segredo das crianças felizes” e “Criando
meninos” (Ed. Campus), com mais de três milhões
de exemplares vendidos em vários países, inclusive
no Brasil. Steve tem um filho adulto, uma filha adolescente
e um ferret de estimação.
Diário: Qual o maior problema educacional hoje?
STEVE
BIDDULPH: Visitei escolas e conversei com muitos pais aqui
no Brasil para aprender sobre a situação específica
do país. Descobri que, em todo o mundo desenvolvido,
por causa do consumismo, as famílias foram assassinadas
pelo estresse e pela pressa. A pressa é inimiga do
amor e a pressão para ganhar e gastar dinheiro é
o maior problema do mundo de hoje. Temos que reconquistar
tempo para relaxar e aproveitar mais as pessoas e menos as
coisas. A ganância do mundo desenvolvido rouba os pobres
do mundo em desenvolvimento. Peço aos pais de qualquer
lugar para serem menos consumistas.
O
que um pai pode fazer pelos filhos?
Eu
me preocupo com os pais que foram afastados da família
e da vida em comunidade pelo papel de provedor. Temos hoje
a geração com a maior falta de pais que já
houve na história. Minha missão é trazer
os homens de volta à vida das crianças. Se um
pai lê uma história para o filho na hora de dormir
ou pega as crianças na escola e brinca com elas, as
pesquisas demonstram que isso vai melhorar as chances de vida
dos filhos. Eles vão ser melhores na escola, arrumar
menos encrenca com a lei, ter empregos melhores. Ter pai e
mãe que se importam com você é o máximo.
Os filhos se sentem especiais e aprendem a amar a escola,
se os pais lêem livros para eles.
O
que uma criança precisa para ser feliz?
Uma
criança é feliz se tem três ou quatro
pessoas que a amam e pode estar com essas pessoas quando são
pequenas. Uma mãe, um pai, um avô ou tio ou irmão
maior ou irmã. Você não precisa de muitas
coisas materiais. Pessoas pobres costumam ser mais amáveis
e pacientes com os filhos. Mas é preciso mais atenção
aos meninos. Escrevi “Criando meninos” porque
há uma tremenda crise com os garotos. Eles morrem três
vezes mais que as meninas, de acidentes, suicídios,
drogas e violência.
Qual
a diferença na educação de meninos e
meninas?
A
maior diferença dos garotos é o tempo de crescimento:
eles são mais lentos que as meninas no desenvolvimento
mental. Muitos meninos não estão prontos para
a escola antes dos 5 anos e deveriam esperar mais um ano,
se necessário, ficando no jardim da infância.
Se esperassem um ano, ficariam prontos para sentar quietos,
ter maior capacidade de linguagem.
Os
meninos não sabem se comunicar?
Os
meninos precisam de ajuda para serem bons em comunicar seus
sentimentos. Os pais deveriam ler e contar histórias,
conversar mais com eles. Os pais brasileiros são ótimos
em calor humano e afeição. Mas é preciso
premiar o bom comportamento. Os pais devem fazer os meninos
ajudarem nos trabalhos de casa tanto quanto as meninas.
Meninos
devem cozinhar?
Todo
menino deveria aprender a cozinhar lá pelos 9 anos
e preparar uma refeição para a família
uma vez por semana. O mundo não precisa mais de homens
capazes de lutar com búfalos. Queremos homens capazes
de dividir e comunicar. Precisamos de homens como Nelson Mandela,
não como George W. Bush.
Quem
educa melhor, o homem ou a mulher?
Homens
e mulheres podem, ambos, educar bem. Mas há algumas
coisas únicas que cada um faz. As mães deixam
as crianças mais calmas. Os pais puxam os meninos para
cima, mas, fazendo isso, podem estressá-los. Crianças
com pais que brincam com elas são muito mais relaxadas
e confiantes. Os pais ensinam os meninos a controlar sua excitação,
a ficar excitados sabendo quando parar para não ferir
ninguém. As mães ensinam os meninos o que as
mulheres gostam nos homens: conversa, gentileza, humor. Os
pais dão às filhas confiança e valorizam
sua inteligência. A menina que não tem pai presente
confunde atração com amor paterno e é
facilmente explorada por meninos.
O
que os pais podem ensinar aos filhos?
Pais
que trabalham por muitas horas se submetem demais aos seus
filhos porque não querem ser “maus” no
tempo curto que têm com eles. Mas o certo é esperar
que os filhos façam os deveres da escola e ajudem nas
tarefas de casa. Os pais devem mostrar como o verdadeiro orgulho
vem daquilo que você faz e não de como você
se parece ou do que você tem. É ótimo
passar o tempo livre com amigos, com outras famílias,
de modo que haja um vilarejo no imaginário cotidiano
do filho, ainda que a família viva em cidade grande.
Minha mensagem é essa: construam uma comunidade. Dediquem
tempo à escola, aos grupos de esportes e aos amigos.
Não fiquem só vendo TV e indo ao shopping. As
pessoas, e não as coisas, são o verdadeiro sentido
da vida.
Matéria
Publicada na "Revista Já" - Suplemento do
Diário de São Paulo
Edição de 08/06/2003
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