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O
Pai Nosso que está na Terra

Especialistas
lembram a importância do pai na criação
dos filhos e garantem que os homens são um símbolo
essencial de autoridade e ordem para as crianças
DENILSON
OLIVEIRA
As
mulheres queimaram sutiãs, depois passaram a ocupar
altos cargos na política e em grandes corporações.
Chegaram até o ponto de conceber uma criança
sem aquela tradicional participação masculina,
graças à inseminação artificial.
Apesar de, em muitos casos, também terem virado chefes
de família, elas nunca serão capazes de tomar
dos homens um posto: o de pai, mesmo que algumas delas decretem
a falta de importância da figura paterna na criação
dos filhos.
“Sempre
precisei de meu pai para tudo e sou muito ligado a ele. É
um cara muito brincalhão, mas nunca deixou de me mostrar
que cada coisa tem sua hora”, conta o jogador de futebol
Diego, atacante e estrela do time do Santos, de 18 anos.
O que
o craque reconhece no pai é exatamente o que torna
essa figura insubstituível na formação
de um indivíduo, principalmente durante a infância.
De acordo com estudiosos da vida em família, o pai
é responsável por impor limites e mostrar o
mundo ao filho, para que ele cresça como cidadão
e saiba respeitar limites. “As mulheres e a ciência
acham que ter um filho sem pai pode dar certo. Mas não
dá. Muitas falham quando assumem uma produção
independente. Filho não é um produto e sim fruto
de uma relação afetuosa. Ser pai e mãe
ao mesmo tempo é impossível”, diz a psicanalista
Andreneide Dantas, do Instituto Tempos Modernos.

O
psicólogo italiano Luigi Zoja, autor de dois livros
sobre a figura paterna e ex-presidente da Associação
Internacional de Psicologia Analítica (Iaap), vai mais
longe. Ele afirma que o desaparecimento da autoridade paterna
provoca uma situação de declínio na sociedade
ocidental, causando uma série de problemas: crescimento
da delinqüência juvenil, do consumo de drogas,
aumento dos distúrbios psíquicos e emocionais
e até o florescimento de novas ditaduras.
Situação
de risco
Quem
trabalha com crianças em situação de
risco concorda com o psicanalista italiano. A maioria das
crianças atendidas em entidades assistenciais não
conhece ou não convive com o pai. O Projeto Quixote,
mantido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
fez uma pesquisa entre adolescentes que moram na rua, têm
vícios ou abandonaram a escola. Entre os entrevistados,
22,7% nunca conheceram o pai. Entre os 77,3% que o conheceram,
apenas 22,7% dos jovens moram com ele. Matematicamente, a
ausência do pai parece constituir fator de risco. Entre
meninos envolvidos com o tráfico de drogas em favelas,
grande parte jamais teve um convívio regular com o
pai.
“A
ausência do pai é comum em famílias de
baixa renda. Muitos homens têm filhos com várias
mulheres e abandonam as famílias. Essas crianças
acabam entrando em situação de risco porque
falta um pai para impor limites”, acredita Bettina Grajcer,
pediatra do Projeto Quixote.
É
claro que os pais contemporâneos são bem diferentes
daqueles dos anos 50 do século passado, mas seu papel
não difere muito, em sua essência, daquele exercido
pelo ator Robert Young na série “Papai Sabe Tudo”,
famosa por refletir os costumes dos anos 50, quando foi produzida.
A autoridade permaneceu, ainda que os chefes de família
manifestem mais seu carinho e acompanhem de perto o dia-a-dia
dos filhos.
O
próprio Diego afirma que uma das principais virtudes
de seu pai, o engenheiro mecânico Djair Silvério
da Cunha, é o companheirismo. O jogador diz que, se
não fosse o pai, hoje não seria uma das grandes
revelações do futebol brasileiro: “Ele
foi meu ídolo, batia bola comigo e me incentivou no
futebol. Apesar de ele não ter conseguido ser um jogador,
porque a família não deixou, não se sentiu
frustrado e realizou um sonho ao me ver jogando.” Mas
a cumplicidade jamais interferiu no respeito de pai para filho.
“O Diego cansou de levar repreensões. Todo menino
pequeno é levado”, afirma Cunha. Numa de suas
traquinagens, o garoto Diego derrubou o aparelho de TV apenas
porque queria atenção.
A
imagem do pai
Ter a imagem de um pai exemplar é algo extremamente
sadio para um filho. Durante os primeiros anos a criança
é totalmente dependente da mãe, mas depois a
primeira pessoa que passa a admirar é o próprio
pai. “Ela o vê como um espelho, mesmo que o pai
não seja o mais exemplar de todos, e passa a ter certeza
de que ele é seu apoio”, explica a psicoterapeuta
Vera Iaconelli, coordenadora da clínica Gerar –
Escola de Pais, especializada em estudar o relacionamento
entre pais e filhos.
A
atriz Regiane Alves, de 24 anos, a Dóris da novela
"Mulheres Apaixonadas", é outra que tem o
pai - o construtor José Monteiro - como exemplo. "É
o grande homem de minha vida. Já tive vários
conflitos, não como a Dóris tem na novela, mas
foi ele quem me ensinou a batalhar por tudo na vida e a ser
uma pessoa honesta", diz a atriz, que na ficção
não tem a mesma sorte. Seu pai, interpretado por Marcos
Caruso, de vez em quando lhe dá umas cintadas e uns
tabefes.
 
Mesmo
morando no Rio de Janeiro, longe de Monteiro, que mora no
interior de São Paulo, Regiane ainda respeita o pai
como se estivesse sob o mesmo teto. Antes de ser capa de uma
revista masculina, a atriz quis saber a opinião dele
sobre o assunto. "Perguntei e ele disse que era uma decisão
minha. Isso me deu mais segurança para fazer as fotos".
Pai
não é amigo
Wanessa
Camargo, de 20 anos, também é fã do pai,
o cantor Zezé de Camargo. "Me orgulho muito dele,
não só pelo cantor, mas pela pessoa que ele
é fora dos palcos", diz. Apesar de os dois não
estarem lado a lado todos os dias, ela garante que que ainda
são muito unidos. "Ele sempre foi uma constante
na minha vida. No começo da minha carreira recebi muitas
críticas e sempre fui correndo para os braços
dele", conta a jovem cantora.
Mesmo
antes de se tornar famosa, Wanessa já contava com o
apoio de Zezé de Camargo. Quando a menina ainda estava
no período escolar, era ele quem a ajudava nas lições
de casa. "Foi meu professor particular de História".
A cantora também lembra que quando deu uma entrevista
dizendo que não era mais virgem, sem seu pai saber:
"Ele nem tocou nesse assunto, só me disse para
tomar cuidado com o que falo por aí, apesar de não
ser um homem tão liberal".
Aliás,
um erro que muitos pais cometem é exagerar na liberalidade
e se comportar como amigo de seus filhos. "São
relações diferentes, uma menina jamais poderá
contar tudo o que faz para seu pai", explica Andreneide.
Maria de Fátima Dias, coordenadora do núcleo
de psicologia da Universidade Paulista (UNIP), concorda: "Os
dois podem ter um ótimo relacionamento, mas o pai precisa
ter autoridade. Ao contrário da amizade, onde a relação
é de igualdade".
Respeito
Quando
o assunto é autoridade, muitos homens ainda se assustam.
No passado, a imagem do pai era mais severa: os homens amavam
seus filhos, mas eram mais contidos ao demonstrar o seu afeto.
"O filho precisa saber quem manda, mas o pai também
deve ter consciência de que ter autoridade não
é ser a autoridade", diz Vera.
Segundo
a psicoterapeuta, uma das maiores dificuldades dos homens
contemporâneos é colocar limites nos filhos,
pois temem ser vistos como autoritários ou terroristas.
Mas, em compensação, conseguem ser bem mais
carinhosos do que antigamente. "Hoje eles têm mais
acesso aos filhos, participam de reuniões e são
tão presentes como as mães", afirma.
O
chef Roberto Ravioli, de 50 anos, é uma prova de que
o pai pode ser mais presente sem perder a autoridade. Filho
de um militar italiano, Ravioli teve uma criação
bem mais rígida do que a de seus filhos Antônio
Franco, de 12 anos, e Frederico Luca, de 10 anos. "Meu
pai era muito severo com os filhos, eu o amava muito, mas
na verdade tinha medo dele. Poré, hoje reconheço
e agradeço a Deus por ter tido um pai como ele".
Uma
qualidade que o chef garante ter herdado do seu pai no tratamento
com os garotos foi a seriedade. "Exijo que eles me respeitem.
Eu apanhei muito, mas nunca bati neles. É outra geração,
antes não havia diálogo. Eu sempre entendo a
vontade deles."

Roberto
Ravioli, que se separou da mulher há três anos,
procura ser uma presença constante na vida dos garotos.
"Achei que iríamos nos distanciar, mas foi ao
contrário, e está bem melhor que antes",
diz o filho de 12 anos. Para não ficar longe das crianças,
o pai mudou-se para um apartamento em frente ao que eles moram.
"Não queria disputá-los com a mãe,
foi a solução que encontrei. Assim ainda dá
para levá-los na escola, ao médico e estar sempre
por perto", conta o chef.
Estar
por perto implica também em dar uns puxões de
orelha quando necessário. "De vez em quando meu
pai fica bastante bravo comigo, mas eu sou mesmo bagunceiro
e sempre peço desculpas", diz Frederico, o caçula,
que afirma que que vai seguir a profissão do pai quando
crescer. "Já faço macarrão e panqueca",
diz.
Aprendizado
Nesse
tipo de relacionamento, o aprendizado de ambas as partes é
uma via de duas mãos, sempre em funcionamento. A imagem
paternal tem que mostrar experiência, mas sem desrespeitar
os filhos. "Não existe mais o 'cala a boca'. Tudo
que pai sabe tem a obrigação de passar para
o filho e vice-versa, é uma troca constante",
explica Andreneide.
Vera
Iaconelli lembra que os pais também tem suas limitações
e, se demonstrarem que sabem lidar com isso e passarem a ser
tornar mais tolerantes, o filho agirá da mesma maneira.
Foi
assim que o escritor Affonso Romano de Sant´anna criou
as filhas Fabiana, de 37 anos, e e Alessandra, de 30, tradutora
e atriz, respectivamente. Ele ainda lembra o tom das conversas
que tinha com as meninas ainda adolescentes. Dizia: "É
um aprendizado mútuo, nunca fui pai, nem vocês
filhas. Posso acertar e errar, mas temos que conversar. Sempre
houve diálogo entre nós. No mais foi esperar
o amadurecimento, não podia exigir muito de uma adolescente".

A
experiência de ter criado duas filhas fez com que o
escritor colocasse no papel tudo em forma de crônica.
Há 20 anos, ele escreveu o texto "Antes que Elas
cresçam", reeditado esse ano pela Landmark, em
que, de forma prática, conta como foi bom ter tido
a responsabilidade de ser pai.
"Todos
os dias recebo ligações em casa ou e-mails de
pessoas que leram e que se emocionaram. São situações
universais, elas podem não ter ido aos mesmos lugares
que cito na crônica, mas a intensidade sempre é
a mesma", conta o escritor.
Assim
como as especialistas, Sant´anna também frisa
a importância do pai. "Acho importante a figura
do paterna na família, é bom contar com esse
homem a qualquer hora. O pai é como se fosse uma grande
árvore. O mundo pode estremecer que ele sempre estará
lá".
Matéria
Publicada na "Revista Já" - Suplemento do
Diário de São Paulo
Edição de 10/08/2003
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