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Narcotização
da Palavra
O
ser humano ao nascer toma seu primeiro banho de linguagem.
Primeiro banho este que foi sendo preparado ainda no ventre
materno - até mesmo antes, por gerações
anteriores à geração de seus pais. Este
é um tempo místico, de nascimento do ser falante,
tempo este que fixa e estabelece seu lugar na constelação
familiar. Fixado e estabelecido como ser falante, podemos
dizer que o ser humano padece de uma patologia incurável.
Incurável, porque para todo ser falante há de
entrada, uma imposição que é a da linguagem.
Aprendemos a falar, a articular uma língua, seja ela
qual for, a partir desta imposição. Então,
da entrada na linguagem já está descartada para
todo ser vivente, qualquer harmonia, qualquer equilíbrio.
Este
mal estar é estrutural, está para todo ser falante
por ser capturado pela linguagem. Patologia incurável
que faz com que o ser falante ao nascer fique impossibilitado
de viver livremente e de se governar por leis próprias.
E sim, este ser será governado e dominado pelas leis
do inconsciente. O ser humano então ao nascer, é
uma resposta ao desejo do Outro. É deste Outro, portanto,
lugar do significante que surge o ser do Sujeito. A relação
que o Sujeito tem com o significante do desejo do Outro, que
é a lei que proíbe o incesto, que possibilitará
que o Sujeito constitua discurso.
Freud
nos seus primeiros estudos descreveu a histeria como uma "anomalia
do sistema nervoso" acompanhada da formação
de um excesso de estímulo dentro do orgão anímico.
Freud, nesta época, não prescreve narcóticos,
por tratar-se de um excesso que ampliaria o estado patológico
de suas histéricas. Prescreve como terapeutica adequada
a hipnose, cujo objetivo era aliviar os sintomas através
das recordações que estavam ligadas ao sintoma,
na medida em que o paciente falava.
Mesmo
trabalhando sob um modelo biológico e usando como técnica
a hipnose foi a partir dela, das investigações
que fazia, que Freud faz descoberta dos efeitos da língua
sobre o corpo,onde as palavras mágicas do hipnotizador
comandavam as atividades do hipnotizado.
No
texto "Tratamento Psíquico" de 1890, Freud
escreve que "entre o corpo e o espírito há
um vínculo de reciprocidade marcado pela magia das
palavras sobre o corpo". Neste domínio o sujeito
hipnotizado só vê, ouve e compreende o hipnotizador.
Aqui podemos fazer uma analogia ao ideal materno, quando uma
criança ao ser amamentada fica como hipnotizada pelos
olhos de sua mãe. E quando alucina que está
sendo amamentada só vê e ouve uma pessoa, o resto
do mundo fica adormecido. Freud marca esta relação
do hipnotizado com hipnotizador como uma relação
intensa de amor, e um excesso, excesso esse que é "fonte
tóxica", onde os hábitos patológicos
são removidos, mas criado este amor, de transferência
um hábito doentio, uma nova adicção.
Esta relação intensa de amor, este excesso de
amor, entre hipnotizado e hipnotizador faz com que o hipnotizado
fique magnetizado pela pessoa amada. Não vendo e nem
contando com mais ninguém além do hipnotizador.
Assim como as histéricas de Freud, alguns analistas
magnetizados pela obra de Lacan fazem da psicanálise
uma religião colocando Lacan como um pastor que seu
rebanho terá que segui-lo. Ficam numa posição
de magnetizados e hipnotizados na certeza de que no futuro
não surgirá outros. O próprio Freud ressaltou
dizendo que não se deve abusar do método hipnótico,
pois este método, ou melhor esta droga, tem como efeito
colateral a dependência do enfermo ao médico.
Assim como uma criança pequena tem esta relação
de dependência extrema de sua mãe ou de quem
cuida dela.
Tal
dependência fez com que uma menina de 7 anos procurasse
sua análise para falar o que fazia todos os dias. "Fale
o que você faz todos os dias", esta frase foi
dita por sua mãe para situar o que é uma sessão
de análise. Esta menina começa sua análise
falando o que fazia desde a hora que acordava até a
hora de dormir. Ficou durante muitas sessões fazendo
este relatório diário falando o que aconteceu
desde a última sessão até o próximo
dia da outra sessão. Até esta que num certo
ponto falava: "agora estou aqui".
Neste
"agora estou aqui" que parecia o início
de sua sessão ela se angustiava um pouco e dizia que
queria ir embora..ou lembrava de algo que tinha feito e que
ainda não tinha falado. As intervenções
iniciais de minha parte ele escutava mas, voltava logo a falar
de seu relatório. Depois de um certo tempo ela foi
se soltando separando-se pouco a pouco de seu relatório
até descobrir que podia fazer sua sessão de
outro modo, o que culminou no relato de um sonho onde descrevia
um homem estranho, que ás vezes se confundia com seu
pai, sequestrando-a. Nesta encenação, nesta
fantasia de sedução, nesta Outra Cena, esta
analisanda oferecendo-se como objeto tem como resultado de
sua oferta o assassinato do pai. Pois no momento em que o
pai, deseja não é mais um pai digno deste nome.
Desvelada sua indignidade enquanto pai perde com isto a função
de interditar o incesto. A analisanda continua seu relato
dizendo que ela e a empregada conseguiram fugir do provável
sequestro. Seduz e se esquiva, deseja e mantém um desejo
insatisfatório para permanecer na espera deste gozo.
Numa
outra sessão diz: "Sonhei que estava com minha
empregada e o meu pai querendo me sequestrar" e faz
um comentário sobre o sonho: "Estranho, não
é?!". A partir desta gloza, deste comentário
que a sonhadora se implica no que diz e o analista no seu
dizer. Pois só o analista implicado no dizer é
que se pode falar da existência do inconsciente.
Freud,
pouco a pouco, vai abandonando a hipnose e deixa suas histéricas
falarem cada vez mais. No momento mesmo, com sua escuta, onde
possibilita que a histérica constitua seu desejo no
ato da fala, é que Freud descobre os mecanismos do
inconsciente nas relações do desejo com a linguagem.
Freud deu vida ao desejo do analista, pois só este
pode produzir o sujeito do inconsciente, o sujeito da psicanálise.
A experiência de uma análise é a possibilidade
que o sujeito tem de reconhecer-se naquilo que diz. E o sujeito
reconhecendo-se naquilo que diz constrói mais um ponto
de sua história. Esta analisanda então que estava
como objeto do Outro - muda sua posição no discurso
e começa a tecer sua história familiar, a falar
do que lhe acontece.
Esta Outra cena, neste lugar Outro da linguagem é que
possibilitará ao ser que fala construir sua novela
familiar, dizendo o que lhe acontece e até o que faz,
mas com seu desejo em seu devido lugar e não mais como
escravo do desejo do Outro.
Hipnotizar
não é uma especialidade médica e sim,
é o poder que a palavra tem sobre o ser falante. Para
todo falante a entrada na linguagem é abrupta e obrigatória.
Então desde que nasce, o ser falante por ser escravo
da linguagem é um ser hipnotizável. E os efeitos
que as palavras têm sobre ele tanto podem paralisar
como estimular, podem impedir e/ ou modificar. As palavras
do amo são ordem para serem obdecidas. A estes imperativos
seus escravos seguem: estude, faça, não faça,
fale, não fale, grite, não grite, beba e pare
de beber - o escravo obedece.
Um
homem que dizia ser alcóolotra frequentou algum tempo
os "Alcoólatras Anônimos" porque
sua mulher o obrigou a ir. Diz que não ficou muito
tempo indo às reuniões pois não aguentou
ficar ouvindo mais as experiências dos outros. E também
não aguenta mais ter que ficar obedecendo as ordens
de sua mulher e de seus filhos. E diz mais: "minha
mulher e meus filhos não conversam comigo, eles não
me escutam, eu não tenho vez e nem voz. Eles só
escutam a ela- ela até parece o homem da casa. Quando
ela diz pare de beber aí é que eu bebo. Afinal
de contas quem é o macho da casa?" Coloco
em menção este "macho". Ele
reafirma dizendo que é o "macho" da
casa. Eu interrogo novamente com espanto; ele se colocando
na posição de macho e sua mulher parecendo o
homem da casa. Neste momento a palavra "macho"
lhe volta de outra forma. E ele continua seu relato. "É
macho se fala para animal e animal não tem voz. Como
poderiam me escutar?". É, eu sou um homem".
Faz um silêncio
Um pensamento me veio agora,
quando ela diz pare de beber e eu bebo, eu não a estou
contrariando. Eu estou fazendo o que um tio meu me disse quando
era jovem. Para ser macho tem que beber. E a cada vez que
faço isso ela fica como homem da casa. Mas eu sou o
homem. Como fazer para não fugir desta responsabilidade?".
As
palavras tem seu peso e seu peso é a mensagem recebida.
É o sujeito encontrando-se e reconhecendo-se naquilo
que diz. O peso e a responsabilidade de relacionar a palavra
com a linguagem, de haver uma sanção à
partir desse lugar Outro da linguagem. Lá onde estava
o isso, que o sujeito advém, reconhecendo-se, dando
peso, dando corpo às palavras. É no momento
mesmo do ato analítico, no instante da abertura do
inconsciente, neste movimento que o analisante pode se dar
conta de um dos significantes que marcaram seu destino.
Esta
marca, este rótulo, "sou toxicômano",
"sou alcoolatra", como um significante representando
quem fala, condena este ser falante a ficar por fora do discurso
como um marginal, um exilado gozando por fora da lei do desejo.Defrontando-se
com o enígma do desejo do Outro, que é a base
de todo ser falante, ele, o ser falante poderá criar
novas significações relançando seu próprio
desejo.
Agora, se há possibilidade do ser falante se identificar
de outro modo, defrontando-se com o enígma do desejo
do Outro, que é a base de todo ser humano, poderá
criar novas significações, relançando
seu próprio desejo.
Nós
analistas não curamos toxicômanos, pois se acreditássemos
que a cocaína, a bebida alcóolica , seja a droga
que for, fosse o funesto e o trágico para o sujeito,
estaríamos narcotizados pelo ideal de querer curar
em massa, e isto nos deixaria surdos e impossibilitados de
escutar e de colocar a palavra singular em função.
Para nós analistas, o trágico, o sinistro, a
droga é a alienação do sujeito diante
do desejo do Outro e os sacrifícios que o sujeito faz
para o outro fazendo de sua vida uma droga.
A
possibilidade de uma análise é abrir o enigma
para o sujeito. A pergunta que o sujeito faz em transferência
coloca o analista como um sujeito suposto que sabe. Esta neurose
de transferência é outra droga, mas uma droga
que pode ser analisável. Na medida em que o analista
não vai a este lugar do saber, se abstém de
qualquer saber prévio sobre o analisante, há
a possibilidade do sujeito fazer um trabalho de sustentação
entre os significantes, criando novas significações.
E o sujeito fazendo novas significações encontra
seu lugar no discurso não mais dormente e adormecido
pela palavra do Outro. O sujeito continua usando as palavras,
mas não mais escravizado e narcotizado por elas, e
sim, como sujeito desejante, como um amante da língua.
Neusa
Lais Coelho
Psicanalista - Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Tel: (0**21) 2236-0563 - Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br
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