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Do
Muro ao Murro
A
agressividade não se apresenta apenas nos atos violentos.
Ela permeia nossa vida: esconde-se nas palavras, nas intenções,
nas análises. A agressividade não é algo
que difere da conduta humana em geral, mas faz parte dela.
Socialmente perigosa porque causa danos aos valores fundamentais
que permitem a existência de uma comunidade, rompe o
pacto que os une e ataca seus membros. Pior ainda, o agressor
não apenas responde ao ambiente senão que também
atua sobre ele produzindo novas reações.
Por
que o sujeito agride?
Agressividade e narcisismo são contemporâneos
na formação do eu. Como o eu se forma a partir
da imagem do outro, quando o sujeito vê seu próprio
corpo na imagem do outro, ele percebe seu próprio domínio
realizado no outro.
Lacan
cita Sto .Agostinho : "Vi com meus olhos e conheci um
menino pequeno, prisioneiro do ciúme. Ainda não
falava, mas já contemplava, pálido e com um
olhar envenenado, seu irmão de leite". Não
é preciso muita teoria, basta apreciar crianças
brincando para constatar este modo de identificação
narcísica, correlativa à agressividade e que
determina a estrutura do ego. A criança que bate, afirma
que lhe bateram, aquele que vê o outro cair, chora.
Ë nesta identificação com o outro semelhante,
que o sujeito revela sua ambivalência estrutural. O
sujeito agride e zela, zela porque se identifica. O ciúme
primordial não se origina na inveja pelo objeto do
outro mas da própria identificação com
o semelhante.
O eu está ligado à imagem do corpo. A criança
vê sua imagem total refletida no espelho e identifica-se
com essa imagem , imagem ideal, à qual ela jamais conseguirá
unir-se. Esta visão unificada, globalizada de seu corpo
não condiz com o estado de dependência e impotência
motora em que se encontra. Lacan chama de "identificação
primordial com uma imagem ideal de si mesmo" a esta relação
erótica onde o indivíduo humano se fixa a uma
imagem que o aliena de si mesmo.
Com seu estudo da paranóia, Lacan considerou um traço
universal: o eu possui uma estrutura paranóica, é
um lugar de desconhecimento, o que significa que não
conheço o que está em mim, vejo-o no outro,
do lado de fora.
Sendo a criança capturada pela imagem do outro, fica
estabelecida uma tensão: é preciso destruir
esse outro, portador de sua alienação. Ao perceber
seu domínio e seu desejo realizados no outro, é
levada ao desejo de matá-lo. Toda relação
especular é uma relação mortal, só
superável pelo surgimento do simbólico.
Não
há acordo possível entre o eu e o eu ideal.
Apenas o ideal do eu - simbólico- pode vir a por um
termo nesta relação. O ideal do eu, nos diz
Freud, é o conjunto de traços simbólicos
implicados pela linguagem, pela sociedade e pelas leis. O
sujeito pode aí encontrar um lugar para si onde pode
ser amado na medida em que satisfaça certas exigências.
Assim, o simbólico organiza o imaginário prevalecendo
sobre ele. O ideal do eu é constituído fundamentalmente
por exigências externas ao indivíduo, particularmente
por imperativos éticos transmitidos pelo pais, exigências
às quais o sujeito terá como norma satisfazer.
Veiculadas pela linguagem, elas operam a mediação
entre o eu e o outro, necessária para que seja superada
a relação dual imaginária. Tais exigências,
são designadas por uma instância de censura bem
como de consciência moral. Instância que observa
e que é também uma voz, que mede os desempenhos
de um indivíduo pelo ideal e que instaura o dito dos
pais como voz, enquanto porta-voz da lei e da moral. Se o
sujeito pode ser amado na medida em que satisfaça certas
exigências, esta é a prerrogativa para a instituição
do laço social.
A mediatização do simbólico pode se dar
em diferentes graduações: no indivíduo
"normal" ela é mais evidente mas à
medida que perde força pode levar a desequilíbrios
lançando o sujeito na psicose e rompendo os laços
sociais. O que confere às pulsões anárquicas
uma ordem, constituindo a rede de significantes, é
a linguagem. Ao estado anárquico de dispersão
das pulsões, Freud chamou pulsão de morte. No
mundo humano a palavra intervém como estruturadora
e valoradora do imaginário, sendo o "exterior
" a que se refere Freud. "A ordem vem de fora"
- diz Freud- e esse fora é a linguagem, a função
simbólica.É a palavra que ordena e regula o
imaginário. Segundo Lacan, no caso Aimée, nada
vinha regular e mediatizar .
Violência remete a violentar , mas também a violação,
transgressão da lei. Lei do pai simbólico, agente
da proibição , que ocupa um lugar muito preciso
e cuja constituição permite que o sujeito escape
da psicose. O pai permissivo rearticula a função
da mãe: o lugar da lei volta a ser ocupado pelo pênis,
objeto do gozo da mãe. Há que distinguir entre
um Outro que tem a ver com o significante e um Outro que tem
a ver com a lei. O lugar do A como código, como lugar
da significação, está presente para o
psicótico, uma vez que ele fala. Mas o outro do psicótico,
desde o ponto de vista do Outro da lei, funciona na realidade
como um lugar sem lei.
Lacan preconiza a falência da função paterna
e nos anos 60 o discurso liberal de permissividade e igualdade
produziu efeitos catastróficos. Discurso perverso que
lança o sujeito no lugar de objeto de um gozo masoquista,
separado do bem- estar e situado além do princípio
do prazer. Gozo masoquista associado ao benefício primário
do sintoma, mal - estar que ameaça a humanidade.
Em nome de um gozo que não coincide com o bem-estar,
o sujeito pode cometer o crime com o objetivo de ser castigado.
Crime no real na psicose, crime no pensamento na neurose,
gozo do castigo em ambos. Na paranóia, castigo como
cura, na neurose obsessiva castigo como fantasma, na histeria
gozo masoquista no sintoma. Na cultura apego ao gozo como
bem supremo, como mal-estar e ainda como dor.
Freud colocou em relevo a posição dos pais na
constituição do narcisismo: "O amor dos
pais pelo filho equivale a seu narcisismo recém-renascido".
Produz-se uma revivescência, uma reprodução
do narcisismo dos pais, que atribuem ao filho todas as perfeições
e projetam nele todos os sonhos a que eles mesmos tiveram
de renunciar. Realizando esses sonhos, o bebê imortalizaria
o eu dos pais. Nesta conjuntura, viriam inscrever-se as imagens
e palavras dos pais, num processo semelhante aos votos das
fadas boas e más sobre o berço do recém-nascido.
Quando o simbólico (a linguagem) fica obstaculado pelo
muro do imaginário, quando o simbólico não
se inscreve, o que resta para o sujeito é a relação
especular, destrutiva, apenas mediatizada pelo murro.
A Clínica Escuta Analítica realizou, durante
o ano de 1999, um trabalho no Colégio Oswaldo Aranha
- capital de São Paulo onde houve um grave incidente,
que lesou significativamente um aluno e levou o agressor à
prisão. A partir de então, outros incidentes
menores gerados ou não pelo fato, passaram a perturbar
o andamento e a regularidade do ano escolar.
Iniciamos
o trabalho com os alunos numa classe de primeira série
do segundo grau onde os professores sabiam da ocorrência
de sérias desavenças entre dois grupos de garotas.
Ao questionarmos estes adolescentes sobre sua opinião
a respeito das possíveis causas da violência
que se instalou no Colégio, eles nos responderam prontamente
que se tratava de falta de diálogo. Perguntamos então
por que, nas querelas entre os dois grupos da turma não
podia haver diálogo. Eles nos responderam prontamente
que sim, houve diálogo; entretanto, ao nos aprofundarmos
mais sobre o teor do discurso, constatamos que tais diálogos
se resumiam a ameaças. Ameaças tecidas numa
rede imaginária de agressões onde a única
saída é a eliminação do outro
semelhante na pancada ,no murro, no desaparecimento. Tanto
sucesso tinha a empreitada que a garota - alvo envolvida,
não estava comparecendo às aulas. Nossa intervenção
pode abrir espaço para um diálogo _ não
dois monólogos _ eliminando o muro desta relação
especular onde o outro pode ser ouvido em sua singularidade
e o murro não precisou ser mais utilizado.
Joaceri
Merlin
Trabalho apresentado na Jornada "Os Sintomas em
Voga" na Escola da Causa Analítica do Rio de Janeiro
em agosto de 1999.
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