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Questões
sobre Menopausa
Dando
continuidade a este ciclo sobre o "Feminino e
a Psicanálise", hoje nós vamos
discutir sobre a questão, ou melhor, as questões
da menopausa.
O que
pode ser dito sobre a mulher que já não tenha
sido dito? Ou não dito? Lembrei-me de uma paciente
de Freud, nos "Estudos sobre a histeria",
Emmy Von N. que disse a ele: "Fique
quieto, não diga nada, não me toque e deixe-me
falar". Um não que Freud
escutou que retorna para ele para criar a psicanálise.
Para
a psicanálise a diferenca de sexo não é
anatômica. Freud escreve: "Não se
encontra para o ser humano pura masculinidade ou feminilidade,
nem no sentido psicológico, nem no sentido biológico"
(1905). A psicanálise tentará dar então
uma conceitualização lógica dos lugares
em que se localizar como homem e como mulher.
Bom,
para situar essa localização lógica,
vamos começar do início. Freud, em 1908, no
texto sobre "As Teorias Sexuais das Crianças"
considerava a diferença anatômica dos sexos do
ponto de vista do menino. Dizendo-nos que o menino diante
da zona genital feminina alterava sua percepção.
Em vez de constatar a falta, o menino, para seu consolo, dizia
que ainda era pequeno, e que um dia ele, o pênis,
irá crescer. A menina compartilhava com a opinião
do menino mostrando-se muito interessada naquele orgão,
sentindo-se em desvantagem e com uma inveja muito grande.
Freud, neste ponto, junto com as crianças, celebrava
a universalidade do pênis.
Em 1923,
com o texto "A Organização Genital
Infantil" Freud modifica essa universalidade
do pênis dizendo da primazia do falo, mesmo esta, tendo
uma relação íntima com o pênis
na medida em que designa o pênis enquanto faltoso ou
suscetível de vir a faltar. Freud explica, então,
que não é o pênis enquanto tal, ele esteve
lá e depois foi cortado, tirado. "Sabe-se
como eles reagem as primeiras impressões provocadas
pela falta do pênis". Negam essa falta
e acreditam ver, apesar de tudo um membro; lançam um
véu. Isto demarca, um grande valor emocional. A falta
de um pênis é compreendida como o resultado de
uma castração, e a criança agora se encontra
no dever de se confrontar com relação á
castração.
Em "Algumas
Consequências Psíquicas das Diferênças
Anatômicas entre os Sexos", escrito dois
anos depois, ele demarca a forma pela qual o primado do falo
se revela para um outro sexo. Pois o ingresso da problemática
da castração ocorre para ambos, mas não
no mesmo nível. Para o menino, esta descoberta se increve
no registro da falta, e para a menina no registro do véu.
Para o menino,
ele se interroga sempre essa falta, inaugurando um tempo infinito
de compreender, onde aqui a ameaça de castração
tem seu valor fundamental. E, para a menina ela viu aquilo,
sabe que não o tem e, quer tê-lo. E tem duas
saídas: a da esperança, esperança de
obter um dia esse pênis que a faria semelhante aos homens
ou denega, recusando a reconhecer sua falta, tendo a convicção
que o tem assume uma posição masculina.
Para
o menino, a ameaça de castração tem seu
valor fundamental no momento em que ele se encontra com o
furo, se confronta com aquilo que não pode ser pensando
sem o conceito da falta, fornecendo assim o conceito do significante
do falo. O menino não está diante do feminino
como uma evidência, por isso precisa do trabalho do
pensamento para significá-lo. Já a menina ela
está diante da evidência do pênis: ela
viu,ela sabe e ela quer, ela então se poupa do trabalho
do pensamento, criando uma tela, um véu para ocultar
sua falta.
Para
destinguir melhor isto podemos falar do registro simbólico
e do registro imaginário. O mesmo é introduzido
pela via do simbólico, ele joga com o significante
da falta onde ele encontra a falta radical de significante
(no inconsciente não há registro da
vagina, não há registro do feminino).
Na menina é pela via imaginária que ele se introduz
atribuindo ao pênis a função de uma identidade
sexual da qual ela se sente privada.
Bem,
vamos avaliar agora as consequências do complexo de
castração nas duas estruturas edípicas.
O menino consuma o apego que havia manifestado ao primeiro
objeto de investimento amoroso (a mãe).
Existe, para o menino, um futuro para seu complexo de Édipo?.
A resposta é não! No texto de 1923, "A
Dissolução do Complexo de Édipo",
Freud nos diz que o complexo de Édipo no menino é
estilhaçado e recalcado pela força de castração.
A situação
da menina é mais complicada. Sendo a mãe também
o primeiro objeto de amor, a menina é levada a renunciar
esse primeiro objeto para substituí-lo pelo pai.
Então,
podemos ver que há uma dissimetria para um sexo e para
outro. No menino, o Édipo desaparece, e na menina é
a origem do Édipo, ou seja, a origem da renúncia
à mãe e da eleição do pai.
Uma das
consequências desta etapa (além do sentimento
de inferioridade, ciúme feminino, intensa reação
a masturbação clitoridiana) é
o afrouxamento da ligação terna à mãe
enquanto objeto. A filha responsabiliza à mãe
por sua falta de pênis, acusa-a de colocá-la
no mundo como insuficiente. A filha se vê desprovida
de um signo indiscutível de sua própria identidade
sexuada pois acredita que sua mãe não lhe deu
o verdadeiro órgão (como deu ao menino).
Esta falta de identidade
a faz se identificar à mãe. Mas maternidade
não é feminilidade. E mais, esta identificação
é ambivalente pois a mãe é também
privada de pênis e por isso desvaloriza para a filha.
Então,
o pai substitui a mãe, a libido da menina se volta
agora para a equação simbólica pênis
= filho, logo, o desejo do filho vem tomar
o lugar de desejo do pênis. Tomando o pai como objeto
de amor, a mãe, para a menina vira objeto de seu ciúme.
Sublinhei
este desejo do filho pois este do tem duas
vertentes. Uma pode ser desejo do filho, da filha, que quer
dizer, o desejo da criança pela mãe. Outra,
o desejo de ter um filho. A criança indo a este lugar
de pênis, cobrir a falta na mãe, o signo da identidade
feminina é sempre apenas uma esperança, até
mesmo uma denegação. Por isto, muitas das vezes,
a maternidade é acompanhada de uma depressão.
Então, tentar cobrir a falta na mãe com um filho,
é um retorno à mãe com toda a ambivalência
dessa relação.
Então,
podemos dizer que há uma persistência de uma
relação ao Outro que perde suas forças
pela intervenção paterna. E aí podemos
dizer que a filha é "não –
toda" assujeitada a essa função
de metáfora (não há substituição
propiamente dita). A instância paterna não
faz desaparecer o primeiro Outro materno.
A função
do pai tem por base introduzir o sujeito na lei do falo. Mas
este significante do falo é insuficiente para significar
o que seria a feminilidade.
Por isto
podemos dizer que a metáfora paterna é insuficiente
para atribuir a um sujeito seu lugar de mulher.
Bem,
vou falar de um fragmento clínico, acerca de uma mulher
(mais ou menos 40 anos) que me procurou há
muitos anos atrás. Esta mulher não sabia o que
fazer com a filha, que na época contava com 14 anos.
Esta moça, na época , quis estudar piano e pediu
para sua mãe contratar um professor ou uma professora
de piano. Esta mulher contrator um homem jovem, dizendo que
teve informações excelentes dele, como professor
de piano . E quando se deparou com a situação
não suportou,. não saía da sala enquanto
ele estivesse lá, pois tinha medo que esse jovem professor
aproveitasse da filha, fizesse algum mal para ela , que a
seduzisse sexualmente.
Anos
depois, ela retorna ao meu consultório, já com
50 anos, queixando-se de uma depressão
muito forte. Logo nas primeiras entrevistas, ela fala algo
que me faz dizer que ela, anos atrás tinha me procurado
para eu atender sua filha. Nega , e diz que nunca tinha me
visto antes. Após isto, ela consegue associar sua depressão
com a menopausa.
Um caso
clínico de Freud que está no texto "A
Psicoterapia da Histeria" Vol. II: Há
algum tempo pediram-me que libertasse uma senhora de seus
acessos de ansiedade, embora, a julgar por seus traços
de caráter, ela quase não se prestasse a tratamento
desta espécie. Desde a menopausa ficara excessivamente
piedosa: costumava receber-me armada de um pequeno crucifíxo
de marfim oculto na mão, como se eu fosse o demônio.
Seus acessos de ansiedade, que eram de natureza histérica,
começaram aos primeiros anos da juventude e, de acordo
com ela, se originaram do uso de um preparado de iodo destinado
a reduzir um crescimento moderado da tireóide. Naturalmente
rejeitei esta origem, e tentei encontrar outra que se ajustasse
melhor aos meus pontos de vista sobre a etiologia das neuroses.
Pedi-lhe primeiro que me desse uma impressão da sua
juventude que estivesse numa relação causal
com seus acessos de ansiedade. Sob a pressão da minha
mão, surgiu a lembrança de ela ter lido o que
é chamado de livro "edificante",
no qual era feita uma menção, num tom suficiente
piedoso, dos processos sexuais. O trecho em questão
causou uma impressão na moça que foi inteiramente
oposta à intenção do escritor: debulhou-se
em lágrimas e arremessou fora o livro. Isto foi antes
do seu primeiro acesso de ansiedade. Uma segunda pressão
sobre a testa da paciente, evocou outra reminiscência
- a lembrança de um tutor dos irmãos dela que
havia manifestado grande admiração por ela,
e por quem se entusiasmara um pouco. Esta lembrança
culminou com a recordação de um fim de tarde
na casa de seus pais, quando todos ficaram sentados em torno
da mesa com o jovem e se haviam divertido imensamente numa
conversação interessante. Á noite, ela
foi despertada por seu primeiro acesso de ansiedade que, posso
afirmar, tinha mais a ver com o repúdio de um impulso
sensual, do que com quaisquer doses contemporâneas do
iodo. Que perspectiva teria eu tido, com qualquer outro método,
de revelar tal ligação, contra suas próprias
opiniões e asserções, nesta paciente
recalcitrante que tinha tanto preconceito contra mim e contra
toda forma de terapêutica mundana?
Menopausa
é o nome que se dá à última menstruação
da mulher, ou seja, àquela menstruação
que encerra em definitivo o seu ciclo reprodutivo, tal como
a menarca (primeira menstruação)
o iníciou.
Também
se usa o termo menopausa para indicar uma certa fase de vida
da mulher. É quando se diz "Ela está
na menopausa" ou "Entrou na menopausa"
e o senso comum entende que aquela mulher não menstrua
mais, nem pode conceber mais filhos.
Menopausa
é uma das ocorrências do climatério que
envolve inúmeras mudanças biológicas,
psíquicas e sociais que produzem uma sintomatologia
geral. Primariamente: irregularidade dos períodos e
fluxos menstruais, ondas súbitas de calor, com ruborização
do rosto, pescoço e colo. E secundariamente instabilidade
emocional, tristeza, depressão; sensível aumento
de peso, náuseas; dores generalizadas ou mesmo reumáticas;
dores nas relações sexuais; aumento ou diminuição
acentuada do desejo sexual; enxaquecas; etc.
Desde
a adolescência, então, podemos ver que a mulher
é inscrita numa temporalidade marcada por crises que
implicam novos arranjos subjetivos, modificações
da imagem corporal e do real do corpo na sua fisiologia. Para
Freud, a fase da puberdade, da adolescência é
designada um tempo após a latência. É
um tempo do despertar da sexualidade, é um tempo de
fazer acordar o traumatismo sexual sofrido na infância.
Nesta fase, culturalmente, dita difícil e até
mesmo catastrófica podemos dizer, com Freud, que a
puberdade e a adolescência é um tempo considerado
como um só-depois da sedução infantil.
É um tempo onde emerge a reedição das
pulsões parciais da infãncia junto com o primado
da genitalidade. Lacan, não sem retornar á Freud
diz que é o período traumático de um
infeliz encontro com o real do sexo. É o período
do declínio do complexo de Édipo onde o falo
na sua relação com o campo do Outro, o campo
simbólico, experimenta sua perda radical. Esta perda,
esta falta é a reserva, a defesa com a qual o sujeito
terá que se confrontar para remodelar, refazer e assumir
sua posição na função genital.
No período da adolescência, nesta fase do declínio
do Èdipo quando a função da privação
deixa o sujeito castrado à nível de seu ser,
é onde o sujeito deverá fazer o luto do falo
enquanto sujeito do desejo.
Na menopausa,
especificamente, há uma especificidade desta crise
que coincide com a aparição das primeiras marcas
do tempo, o envelhecimento e os lutos (as renúncias)
que ela implica.
Em todo
o processo de luto é o pai simbólico, e cortejo
da ambivalência em relação ao objeto amoroso
perdido, que será convocado.
A depressão
se caracteriza por "um estado de espírito
profundamente doloroso", diminuição
do interesse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar
e inibiçaõ de todas as funções
(1915).
Em cada
sujeito a depressão tem diferentes significações,
que só a análise vai poder desvendar. A depressão
apresenta baixa auto–estima, auto – acusações
e auto-depreciação. O sujeito não sabe
o que perdeu ou não sabe o que perdeu junto com isso.
Freud usa a palavra depressão para falar de um luto
patológico. Porque fala de um luto patológico?
Pois luto requer um trabalho de elaboração,
e na depressão trata-se de um luto congelado, eternizado,
pela falta de trabalho de elaboração. O sujeito
não quer se referenciar na perda não quer se
reconhecer como sujeito faltoso, o que o remeteria à
castração.
Lacan
em "Televisão" define depressão
como um pecado, covardia moral frente ao dever do bem dizer,
de se referenciar na estrutura, o que seria equivalente a
se reconhecer como desejante. O sujeito triste tem medo de
saber de seu desejo, o que o leva muitas vezes ao ponto de
não querer desejar. O desejo outorga cor e brilho à
vida, mas deve ser pago com a castração. Pagamento
este que alguns sujeitos não querem fazer. Mas renunciar
ao desejo também tem um preço, ainda mais caro:
implica ficar triste, sem apetite e, ainda pior, esta renúncia
é a causa última das autorecriminações,
já que aquilo de que o sujeito se sente realmente culpado
é de haver cedido em seu desejo.
Isso
explica essa frase aparentemente tão paradoxal, frequentemente
em sujeitos deprimidos. "Não vim à
sessão porque estava triste, deprimido".
Justamente esse "estar-mal" deveria
ser a mola propulsora da vinda à análise. É
que ele não faltou à sessão porque estava
triste, mas sim ficou triste por não querer vir à
sessão, que seria o lugar de poder saber algo de seu
ser desejante.
Isto
que estamos trabalhando, sentimento de inferioridade, menos-valia,
menosprezo, tem a ver com a patologia feminina que é
a maternidade. Pois a maternidade faz o transporte do não
ter para o ser. Ser o falo do Outro
materno. Mãe e mulher superpostas, ela, a mulher, estará
toda incuída na problemática fálica compensando
sua falta. E o lugar da mulher é um lugar vazio.
É
dai que tantas mulheres nos procuram, nós analistas,
com depressão, angústia, dores físicas
e outros vários sofrimentos por não suportarem
esse lugar vazio. Esse lugar vazio , que Lacan, indo mais
além de Freud (que ficou só na questão
fálica), situou que não se trata só da
privação de pênis na mulher. O gozo feminino
vai mais lém do gozo fálico.
A mulher
necessita fazer- se objeto, ser objeto do gozo do outro, do
homem em questão. A mulher não negando, não
cobrindo sua falta possibilita que um homem a deseje. É
o amor e o desejo de um homem que fará com que uma
mulher se identifique como tal.
Neusa
Lais Coelho
Psicanalista - Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho apresentado na Palestra "Sexualidade Feminina"
em 24
de maio de 2002 no Instituto Tempos Modernos - SP
Tel:
(0**21) 2236-0563 - Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br
OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21)
2714-8502 / (0xx21) 2704-0060
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