| Uma
obscura dor sem limites - Melancolia
Um
olhar perdido no espaço…
Um
mutismo que diz mais que mil palavras…
Como
falar de uma dor que não tem como se dizer?
Dor incomensurável, dor do nada, sem causa aparente,
dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão
por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura,
sem limites, cujo sentido está velado para aquele que
a sente.
Dor, pesar, desinteresse. São características
de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível
fazer um trabalho de luto, pelo reconhecimento de que o objeto
da perda não mais existe, para outros parece que este
trabalho é impossível. Por não saberem
exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático
da melancolia.
Desde, os primórdios da psicanálise Freud se
interroga a respeito deste afeto, e a melencolia continua
sendo até hoje uma afecção difícil
de ser classificada. Muitas vezes confundida pelos próprios
analistas, diante da gravidade ou seriedade de um sofrimento,
com a psicose, tomam esta estrutura como uma resposta à
mão para o que pensam que não podem ser considerado
como uma neurose, ou pelo menos não como uma neurose
comum.
Hoje se fala em depressão, como o mal de nosso século,
uma forma de globalizar um afeto difícil de ser enquadrado
na nosografia psiquiátrica.
Numa tentativa de classificar e conceituar esse afeto como
doença mental. DSM IV a define como
Depressão Maior, atibuindo-lhe muitas vezes causas
orgânicas quando não genéticas, desvalorizando
assim tudo que é particular no sujeito: sua história,
seu inconsciente, sua estruturação como ser
de linguagem, sua sexualidade. Substui-se o termo melancolia
por depressão, dando-se invisibilidade à melancolia,
da mesma forma como fizeram com a histeria, o que faz desaparecer
seus traços distintivos como a destrutividade e o sentimento
de culpa. Tenta-se assim tratar o que é um afeto com
drogas que, se por um lado, produzem um bem-estar passageiro,
por outro tapam a boca de uma pessoa que estrutura ja tem
dificuldade de falar.
Mas como generalizar uma dor que é antes de tudo uma
dor de ser, dor que constitui e singulariza alguém?
De que se trata realamente na melancolia?
Desde
1895, nos manuscritos E
e G, Freud começa a tentar dar conta
deste sofrimento, disto que ele nesta época via como
um "buraco na esfera psíquica",
produzindo uma "hemorragia interna"
da libido, por onde se perde sem cessar energia sexual psíquica,
provocando no sujeito um profundo "esvaziamento
do Eu", como ele trabalha em "Luto
e Melancolia".
Assim no manuscrito G, ele correlaciona a melancolia e a anestesia
sexual, dizendo que "não seria errado
partir da idéia de quie a melancolia consiste em luto
por perda da libido".
No manuscrito E ele continua afirmando que os melancólicos
sofrem de anestesia, termo que vem do grego anaisthesia,
que significa sem sentido. Vemos que até este momento
Freud estava trabalhando com os conceitos de que dispunha
na época, mas ja profundamente preoculpado com o sofrimento
que encontrava nestes pacientes, e buscando uma resposta para
que pudesse aliviá-los. Quando relaciona a melancolia
com anestesia, vemos com que apurada escuta via que se tratava,
antes de mais nada, de uma perda de sentido o que se apresentava
como um acentuado sentimento de vazio do qual o melancólico
é portador. Sua investigação sobre a
melancolia desenvolve-se ao longo de sua obra com variada
intensidade, porém estará sempre presente.
Em 1924, em seu texto "Neurose e Psicose", ele inclui
a melancolia na categoria das neuroses nascísicas,
apresentando a malancolia como uma organização
psíquica singular, uma nova maneira de pensá-la,
franqueando os limites rígidos entre a neurose e a
psicose. As psiconeuroses narcísicas se separam, então,
tanto das neuroses como das psicoses e Freud faz da melancolia
o paradigma desta categoria, inserindo-a no complexo de Édipo,
que sabemos ser, articulado ao complexo de castração,
o eixo estruturante de toda a concepção freudiana.
Freud constata que a angústia que encontra em seus
pacientes está relacionada com a sexualidade, pois,
não deixa de afirmar ao longo de toda sua obra que
de acordo como a sexualidade se estrutura e é vivida
pelo ser humano, será isto o que determinará
a etiologia das neuroses.
Um
estado de ânimo profundamente doloroso, um desinteresse
pelo mundo exterior, uma profunda prostração,
perda de sentido, uma inibição generalizada,
bem como uma diminuição do amor próprio,
caracterizam o melancólico. A malancolia nos fala de
uma fragilidade constitutiva, estrutural. Algo claudica neste
ponto de estruturação. Não investido
pelo simbólico o corpo reage: dores generalizadas,
impossibilidade de dormir, distúrbios do apetite, quando
não aparecem doenças mais sérias. Há
um congelamento do tempo, tentativa de recuperar um estado
anterior, mítico, o Um mítico, onde se repercutem
os uns de uma conta sempre errada, já que o sujeito
se contará sempre como não contado ou não
contando para o outro.
Não podemos deixar de ver a relação que
existe entre a malancolia e o afeto do luto. A questão
central é então a perda, pois a falta é
o ponto de origem de nossa inserção no simbólico,
já que a palavra sempre representará uma ausência.
No luto o mundo se mostra empobrecido. Na melancolia é
o próprio Eu do sujeito que se encontra empobrecido.
Enquanto no luto, o sujeito sabe quem perdeu e o que perdeu
e pode assim ir desatando os laços que atavam sua libido
ao objeto perdido, através do trabalho do luto, na
melancolia parece que o sujeito não sabe o que perdeu
com a perda do objeto, caindo então num profundo mutismo,
através do qual ele aponta ao sem sentido da vida.
Com a perda se perde.
Na melancolia vemos, então um luto que não termina,
colocando o sujeito numa obscura dor sem limites, por uma
impossibilidade de dando-se conta da perda do objeto, fazer
uma substituição significante. O objeto perdido,
em vez de ser desinvestido pelo sujeito passa a ter uma dimensão
cada vez maior. E ai temos a originalidade da análise
freudiana: pois o que nos diz Freud é que o sujeito
introjeta o objeto como si o tivesse incorporado no sentido
canibalístico do termo, fazendo assim uma identificação
narcísica.
Quando o amor ao objeto chega a refugiar-se na identificação
narcísica, o ódio recai sobre este objeto substitutivo,
e a partir deste momento é o Eu do sujeito que é
atacado, humilhado, avaliado de maneira crítica e extremamente
severa por um supereu obsceno e feroz. "A sombra
do objeto cai sobre o Eu", ensombrecendo o curso
dos dias, fazendo surgir um sujeito a quem o supereu maltrata
com seu mandato de gozo mortífero.
O par amor- ódio passa a desempenhar um papel relevante.
Por um lado o melancólico sustenta a demanda, e podemos
mesmo dizer a exigência de um amor ilimitado, mas por
outro está tomado por este ódio do objeto introjetado,
o que lhe dá um sentimento de culpabilidade que faz
com que o procure o castigo e a desvalorização
de si mesmo. totalmente tomado nas duas vertentes do complexo
de Édipo, o amor incestuoso e o desejo de morte do
pai, o melancólico encontra-se sob a égide da
pulsão. Lugar de onde o desejo está excluído.
A partir deste momento o eu se considera como objeto abandonado,
e quando se pensa abandonado por todos os poderes protetores
se deixa morrer. Podemos pensar numa volta ao sentimento de
desamparo. Porém, agora é o Eu que se abandona,
abandona a libido que o investia, se desinveste, e com sua
inércia deixa-se ficar nas mãos desta potência
crítica que o habita, livrado a gozo inapelável
da desesperança. Deixa-se morrer é isso. Sai
da cena. Trata-se então de uma versagung,
renúncia daquilo que lhe é mais próprio,
daquilo que Freud considerou o que seria mais fundamental
para alguém: seu apego à vida. Em "Reflexões
para o tempo de Guerra e Morte" diz: "Tolerar a
vida continua a ser, afinal de contas, o primeiro dever de
todos os seres vivos".
Lacan, trabalhando a respeito disto no seminário VIII,
diz que, Freud indica uma certa decepção que
o sujeito não sabia definir. Na melancolia, diz Lacan
, se trata de um "suicídio do objeto", de
um objeto que entrou no campo do desejo e que devido a certos
avatares desapareceu. Isto que faz com que o sujeito malancólico
tome, a posição de pensar que se este objeto
escapou, não valia a pena ter tomado tantas precauções
a seu respeito, e estende isso a todos os objetos do desejo.
Mas isso nos mostra que o sujeito melancólico tem uma
relação muito particular com o efêmero
e a transitoriedade: não vale a pena. Como ser substituível
é um dos indícios do objeto do desejo, essa
viscosidade da libido que encontramos no sujeito melancólico,
por esta aderência que dificilmente lhe permite abandonar
um objeto, mostrando-o como insubstituível, mostra
um engano que tampona a falta. Sabemos que não há
nenhum objeto que tenha mais valor que outro, pois o que dá
valor ao objeto é o agalma que alguém lhe outorga
com seu desejo.
Parece que esta decepção de que nos fala Freud
e que o sujeito não sabe definir, renova, a todo momento,
uma traição sempre esperada. Sendo uma neurose
narcísica podemos pensar que a decepção
é com o próprio sujeito tomado como seu objeto
por uma impossibilidade de corresponder a essa imagem idealizada
que montou para si. A falha narcisista poderia situar-se neste
nível de constituição da imagem, no que
esta se confunde com um modelo ideal que sempre estará
fora do alcance do sujeito. Podemos pensar na constituição
da imagem especular, tal como Lacan trabalhou no Estádio
do Espelho, como se houvesse uma fragilidade no melancólico
em relação à sua própria imagem.
É como se o melancólico se tivesse encontrado
ante uma moldura vazia, não reflexiva, no interior
da qual não havia imagem, somente nada. Isto lhe daria
este discurso: não sou nada, não faço
nada, não valho nada. Assim tenta bordear um vazio
infinito, um vazio que se traduz como intensa dor psíquica
para o sujeito.
Sabemos que depende do olhar que alguém recebe do Outro,
as cores com que vê a si próprio e os encontros
que se atribui. Assim, diversos olhares, em distintos momentos
da existência, marcam o corpo em seu caratér
de desejado ou não, conferindo-lhe valores como um
corpo maravilhoso, ou um corpo denegrido, ou um corpo indiferente
etc…
Indentificado
com esse objeto nada, ele passa a ser nada.
Lacan sublinha no seminário X, sobre a angústia,
que essa identificação com o nada, seria o que
explicaria a forma frequente dos suicídios dos melancólicos
por defenestraçaõ. Já não há
nada pelo que viver. (caso de paciente)
Na melancolia não se trata da perda da realidade, mas
da perda do sentido da vida, retração libidinal
que mostra uma concentração de gozo e exclui
os vínculos com o mundo. Procurando o sentido da vida,
o melancólico não se dá conta de que
o único sentido que é possível é
o sentido que cada um pode dar à sua própria
vida. Ou com diz Lya Luft: "O mundo não tem sentido
sem nosso olhar que lhe atribui forma" (…).
Para fugir da dor de existir, refugia-se no mutismo, sofrendo
uma dor silenciosa. Através do mutismo promove seu
desterro do campo do Outro, o que constitui uma petrificação
do sujeito ante o vazio que ele tenta bordear, ou mesmo preencher
com todo seu ser.
Não é de espantar, então, que vejamos
tantos sujeitos melancólicos atacados de doenças
reumáticas ou doenças auto-imunes que os deixam
paralizados de diversas maneiras.
Diversas formas de suicídios, pois não podemos
ser ingênuos e achar que alguém só se
suicida quando se atira pela janela ou dá um tiro na
cabeça.
Porém onde se mata a vida com o silêncio não
há lugar para que outras dores se expressem através
da palavra. A dor invoca, mas fala de um gozo não limitado,
onde a queixa infinita, que se faz ouvir mesmo no mutismo,
deixa o sujeito desalojado da cadeia significante, sem ter
aquilo com o qual poderia significar-se. Ververfung, portanto,
dos mandatos da palavra, onde o rechaçado toma a figura
obscena e feroz do Supereu.
É na transferência que o melancólico poderá
por em jogo uma separação deste objeto intolerável
cuja sombra recaiu sobre ele.
Poderá construir uma cena onde possa distanciar-se
deste objeto incorporado, onde a operação de
substituição possa encaminhar-se ao mesmo ponto
onde ficou detida. Operação que é equivalente
à posta em vigência do fantasma.
É na experiência de discurso, que é a
experiência de uma análise, lugar onde poderá
reconhecer que ser humano é em sua essência ser
falante, que alguém poderá exercitar-se no bem
dizer, emprestando voz a isso que necessita ser dito mesmo
que sussurrado. Estabelecendo assim pouco a pouco uma separação
em relação ao objeto de seu ódio que
tomou como sendo seu próprio eu, que alguém,
tomado pela melancolia, pode ir deixando um mal dizer doloroso
e aflito, o gemido, a queixa e o mutismo para ir constituindo
um bem dizer criador, onde já não se trate mais
desta alternativa absoluta: o Ideal ou Morte, como sendo única
alternativa possível.
Beatriz Azevedo, Agosto de 2003
Trabalho
apresentado na Jornada do Rio de Janeiro "Os afetos na
vida cotidiana"
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel:
(0xx21) 2236-0563
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