| Gangues
na rede
Aumenta
a violência entre jovens nas escolas: estudantes criam
sites na Internet para agredir e intimidar colegas
Adolescentes de 12 anos estão criando sites para agredir,
coagir e denegrir a imagem de colegas de colégio. A
violência, em muitos casos, sai das aulas de informática
e chega a agressões físicas, dentro e fora das
escolas. Foi o caso do menor P., de 12 anos. Ele virou alvo
de chacota no site Euodeiocatuca, que, em linguagem chula,
o ridicularizava, com insinuações de homossexualismo.
Depois
que seus pais exigiram a retirada do site do ar e a escola
suspendeu por dois dias o seu autor, G., de 12 anos, P. passou
a ser agredido por grupos de alunos no recreio, à porta
da escola e até fora dela, no curso de inglês.
O resultado é que P. não sai mais de casa sozinho
e mudou de colégio, devido à coação
que sofreu. Há alguns meses, uma menina de 12 anos
teve que deixar o colégio após um ataque semelhante
de gangues da internet. Em um outro colégio, alunos
da 6a. série, a maioria entre 11 e 12 anos, criaram
um site durante a própria aula de informática
e passaram a denegrir meninos e meninas das escola. O site,
de conteúdo violento e pornográfico, registrava
300 entradas por dia e chocou os pais pela falta de respeito
entre os colegas, agravada por um palavriado incompatível
com a formação que desejavam para seus filhos.
“Se
eu tivesse uma filha e falassem dela o que eu li no site sobre
outras alunas, morreria de vergonha. A idéia de fazer
um site é boa, a execução é sensacional,
mas o conteúdo é de uma agressividade assustadora.
Hoje,
meninos e meninas de 12 anos são altamente agressivos.
Sobretudo as meninas, mais maduras, que aprontam, bebem e
cansam de chegar de ressaca na escola às segundas-feiras.
A agressividade entre os jovens na escola precisa ser discutida”,
diz Claudia Ramos, mãe de um dos alunos.
Quando
ela e o marido João Carlos Pinheiro, entraram no site
feito pelos alunos num domingo de setembro, ficaram estarrecidos.
Na manhã seguinte, levaram o caso à diretora
da escola que já estava tomando providências
para a retirada do site, junto ao provedor. Pais e alunos
foram chamados para discutir o caso, mas a questão
ainda está no ar. Como lidar com a agressividade sem
limites dos jovens e substituí-la por solidariedade,
respeito ao outro e exercício de cidadania? “O
que eu achei mais absurdo foi que a maioria dos alunos não
via nada demais no site. Para eles, é normal fazer
isso com os colegas. É claro que, no meu tempo de colégio,
alguns meninos e meninas eram difamados à boca pequena.
Mas, com a internet, a agressão se tornou pública
e muito mais violenta”, comenta Claudia.
A
mãe do menor P., agredido pela internet e fisicamente,
Jussara Ferreira, registrou a queixa de todas as agressões
sofridas pelo filho, identificando a maioria dos menores agressores,
na 5a. Promotoria de Justiça de Infância e Juventude.
O diretor da escola diz que a instituição enfrentou
o problema e puniu os responsáveis pela criação
do site e pela briga no pátio, mas não pode
se responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. O advogado
Carlos Alberto Lima de Almeida, do Sindicato de Estabelecimentos
de Ensino, diz que a escola só é juridicamente
responsável pelo que ocorre no seu interior. Para ele,
o único caminho para enfrentar a agressividade dos
jovens é resgatar a família para o ambiente
escolar. “Os pais deixam a formação da
criança exclusivamente para a escola. Eles não
sabem o que os filhos estão fazendo”.
Brincadeira
virou caso de polícia
“No
começo deste ano meu filho teve que fazer uma redação
sobre uma vivência de discriminação. Ele
contou que, no ano passado, numa festa, foi ridicularizado
por não saber dançar funk. De brincadeira, ele
disse para um amigo que lhe pagaria por umas aulas de funk.
A partir daí, começou a ser rotulado de homossexual.
Essa foi a redação de março. Em maio,
na aula de informática, um menino criou um site com
horrores sobre meu filho.
A
punição do menino resultou numa série
de espancamentos dentro e fora da escola. Meu filho não
sai mais de casa sozinho e a escola diz não poder se
responsabilizar pelo que os alunos fazem na rua. Ele está
fazendo análise e saiu do colégio.” (Jussara
Ferreira - mãe
de uma vítima de gangues de redes).
A
responsabilidade é da família
Para especialistas, a falta de limites e a ausência
dos pais está formando jovens egoístas e incapazesde
respeitar o outro. Para eles, o diálogo é essencial,
mas sem perder a autoridade
Se
o seu filho está sendo agredido num site, de quem é
a responsabilidade? Da escola ou dos pais do agressor virtual?
A questão é polêmica. Para o psiquiatra
infantil e escritor de vários livros entre eles “Quem
ama educa”, editora Gente, Içami Tiba, o problema
da violência nas escolas — seja ela virtual ou
real — tem suas raízes em casa, com a falta de
limites. Segundo ele, soltar as rédeas, muitas vezes
é uma atitude decorrente de um sentimento de culpa
dos pais pela ausência e falta de tempo para os filhos.
“Querer
compensar a falta de tempo fazendo todas as vontades dos filhos
é uma armadilha. Essas crianças vão crescer
sem aprender a respeitar o outro. Se elas fazem o que bem
querem em casa, vão levar essa experiência para
a escola”, afirma. Os pais são as primeiras vítimas
da má educação dos filhos. “Quando
o filho tem um comportamento inadequado em casa e os pais
não interferem, eles automaticamente dão poder
para que essa criança continue agindo assim não
só em casa, mas na escola e em outros meios”,
diz.
Influência da turma
Algumas instituições estão botando em
prática a teoria da psicanalista americana Judith Harris,
autora do polêmico best-seller “Diga-me com quem
anda...”, que esteve entre os finalistas do prêmio
Pulitzer. Nos Estados Unidos, o aumento das gangues virou
tema de um filme de Martin Scorcese (com Leonardo Di Caprio,
a ser lançado no Brasil em janeiro) e foi tema de um
debate nacional entre psicanalistas e profissionais ligados
à educação.
Judith
Harris, mestre em psicologia pela Universidade de Harvard,
defende a tese de que não adianta a criança
ter bons pais na infância, pois um ambiente hostil na
escola e a necessidade de inclusão numa turma de amigos
pode transformá-la num adolescente violento. “Os
pais pensam que têm muita influência sobre seus
filhos, mas o comportamento dos meninos e das meninas resulta
dos grupos de socialização a que pertencem.
São esses grupos que vão determinar como as
crianças vão construir a sua identidade e como
vão se comportar fora de casa ”, diz Judith Harris.
Ela
acredita que crianças e adolescentes, hoje, aprendem
tudo, do modo de falar ao jeito de se vestir e se comportar
com sua turma de amigos. Para eles, as relações
entre jovens — de amizade ou de namoro — são
“relações horizontais”, porque se
dão entre iguais. Estas relações afetivas
deveriam ser contrastadas com “relações
verticais”, aquelas que se dão entre pessoas
de idade e status diferentes, que exigem hierarquia e respeito,
e na qual um serve de exemplo para o outro. Este modelo de
“relações verticais” foi, por muito
tempo, aquele adotado entre os pais e seus filhos.
As
gerações atuais, porém, quebraram esta
tradição. Os pais se tornaram ausentes na vida
dos filhos. O resultado é a horizontalização
das relações afetivas, sem a contrapartida da
presença constante dos pais na vida dos filhos. “Uma
das coisas mais impressionantes das pesquisas atuais com jovens
é o fato de que eles parecem mudar totalmente de personalidade
de acordo com o grupo em que circulam. Sua afetividade depende
da aprovação do grupo e sua identidade é
construída a partir desta aprovação”,
acrescenta Judith.
A
psicanalista paulista Andreneide Dantas concorda que, na adolescência,
é comum que os filhos queiram fazer parte de um grupo,
e isso implica adotar as atitudes dessa turma. “São
as tais companhias, das quais os pais têm tanto medo.
Ter amigos é saudável, mas o perigo aparece
quando o adolescente adota comportamentos impostos pelo grupo,
sem discernir se aquilo é bom para ele. Nesse ponto,
é fundamental que os pais participem da vida de seus
filhos”, afirma. Ela alerta que a participação
não deve ser feita de forma horizontal, ou seja, os
pais se colocando como iguais aos filhos, mas, ao contrário,
a relação deve ser vertical.
“A
idéia de que o pai tem de ser amigo do filho é
muito perigosa. Amigo a gente xinga, briga. O pai tem de ter
autoridade”, diz. Andreneide vê na falta de comunicação
e de limites que muitos jovens encontram em suas relações
familiares as razões para os casos de agressão
entre estudantes. “No caso dos alunos que criaram um
site para ridicularizar o colega, minha grande dúvida
é: onde estavam os pais desses alunos? Criar um site
não é tão simples assim. Eles não
têm controle sobre o que seus filhos estão fazendo?
Hoje, essa criança pratica uma violência contra
um colega. Amanhã, se continuar sem limites, pode atear
fogo num índio”.
Para
o psicanalista José Renato Avzaradel, a agressão
virtual é tão nociva e perigosa como outras
formas de violência. Mas justificar tais ações
como expressão da violência da sociedade, abandono
ou agressividade dos pais é negar, segundo ele, a violência
humana. “Quando nos deparamos com notícias como
a do assassinato do casal Von Richthofen pela filha e pelo
namorado ficamos chocados e até surpresos. Porque esquecemos
ou então negamos a violência humana”, diz.
Como
proteger o seu filho
VÁ À ESCOLA: Para especialistas,
os pais devem participar mais da vida da escola, conversando
com os professores e com os filhos sobre o ambiente escolar.
O advogado Carlos Alberto Lima de Almeida criou um projeto
de voluntários para dar noções de cidadania
nas escolas públicas e particulares. “Os pais
transferiram a educação das crianças
totalmente para os colégios e vivem alheios à
vida dos filhos”. Segundo ele, há pais que sequer
vão ao colégio conhecer e fazer a matrícula.
Fazem tudo por telefone e a maioria não vai às
reuniões de pais e mestres.
REGRAS
DE CONVIVÊNCIA: As regras de convivência
e os limites devem ser estabelecidos desde o pré-escolar,
segundo o advogado Carlos Alberto Lima de Almeida, autor do
livro “Somos crianças, temos direitos, mas também
deveres” (Editora Lucena). As crianças que respeitam
regras de convivência desde cedo dificilmente se tornarão
adolescentes violentos e agressivos.
LIMITES:
Para a psicóloga Andreneide Dantas, uma grande falha
cometida pelos pais é fazer todas as vontades dos filhos,
por estarem cada vez mais ausentes de casa devido às
exigências profissionais. “Os pais vivem reclamando
que fizeram tudo, deram tudo aos filhos, mas, ainda assim,
o filho está indo por caminhos errados. Não
percebem que não poderiam dar tudo. Falharam e estão
sofrendo as conseqüências”.
ESCOLA
ENÉRGICA: De acordo com o psiquiatra infantil
e autor do livro “Quem ama educa” (Editora Gente),
Içami Tiba, os pais devem exigir que as escolas sejam
enérgicas em casos de agressões, mas, segundo
ele, um dos grandes problemas enfrentados pelas instituições
de ensino é que os pais transferiram para elas a responsabilidade
de educar. A escola tem de devolver aos pais essa responsabilidade
para que a criança reflita na sala de aula o modelo
que vem de casa.
ATENÇÃO
EM CASA: Se o jovem está vivendo uma dificuldade
de relacionamento com os colegas de turma e os pais nem percebem,
algo vai mal nessa família. Quando há comunicação
aberta, até por um olhar atento para o filho, os pais
vão perceber se ele passou bem ou mal na escola. Mas,
em muitos casos, os pais sequer percebem como estão
seus filhos. Não há diálogo e todos vivem
isoladamente, cada um no seu quarto, embora morando na mesma
casa.
ESCOLA
OMISSA: Para o advogado Carlos Alberto Lima de Almeida,
tudo o que ocorre dentro da escola é de responsabilidade
da escola, que pode ser acionada juridicamente pelos erros
que venha a cometer. Se dois alunos brigam, a escola tem o
dever de apartar. Se há criação de sites
pornográficos nas aulas de informática, a escola
deve responder por isso e, segundo ele, até mesmo os
professores que são igualmente responsáveis.
Os pais devem cumprir sua função de educadores
e exigir que a escola proteja seu filho enquanto ele estiver
sob sua responsabilidade. Porém, no caso do espancamento
do menor P. fora da escola, a responsabilidade seria do Estado,
ainda que os agressores sejam seus colegas de turma.
Marcia
Cezimbra/Juliana Zaroni
Matéria publicada no Jornal
"Diário de SP"
Cadervo "Viver em Família" em 08/12/2002
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