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Entrevista
com a Psicanalista Beatriz Azevedo
Beatriz em primeiro lugar,
quero lhe dar as boas vindas na sua volta ao Brasil.
Obrigada
Quanto
tempo você ficou em Nova York?
Eu
fiquei lá quase 7 anos.
E
você trabalhou lá?
Trabalhei
Como
foi seu trabalho?
Não
foi muito fácil começar. Quando cheguei lá,
não conhecia ninguém, tinha apenas uma referência
que Susana (Susana Palacios - Psicanalista) tinha me dado
aqui. Era Edward Robins. Comecei fazendo um trabalho teórico,
na NOMOS com Edward Robins, ajudando a planejar as atividades,
dando seminários, participando de congressos. Comecei
falando para que as pessoas pudessem conhecer o que eu fazia,
e de que maneira eu trabalhava.
Levou mais ou menos 2 anos para que começassem a me
encaminhar algum paciente. Comecei a trabalhar, então,
com a minha clínica. Depois de algum tempo-não
sei o quanto- eu fui convidada a trabalhar com Paola Miele
, diretora da Instituição Après-Coup.
Então fiquei trabalhando simultaneamente nas duas,
na NOMOS e na Après-Coup. Dava um seminário
na Nomos e um seminário em Après-Coup.
Nestes últimos anos eu tenho trabalhado mais com Après-Coup
do que co a NOMOS, porque a Nomos mudou um pouco sua organização.
Eles tem trabalhado mais ligados, à Fordham University.
E
em que língua você trabalhava?
No
começo, para dar meus seminários, trabalhava
em francês, já que não dominava bem o
inglês. Mas, nestes últimos tempos eu cheguei
à conclusão que era melhor trabalhar mesmo em
português, com tradução direta para inglês,
porque me sinto mais à vontade na minha própria
língua.
Sim,
claro!
É
mais fácil para mim articular os conceitos em português
do que o francês. Então resolvi trabalhar em
português. Também vi que salvo raras exceções,
os psicanalistas estrngeiros que vem trabalhar em Nova York
falam nas suas linguas de origem.
Já, na clínica, eu trabalhava com quatro línguas:
português, francês, inglês e espanhol.
Muito
interessante.
Foi
uma experiência realmente muito interessante. Muito
interessante para pensar por exemplo, toda a questão
do significante nas mais diferentes línguas. Isso varia
de uma língua para a outra, principalmente a questão
da homofonia. Também foi interessante a prática
que me deu ter que mudar rapidamente de uma língua
para a outra. Saía um paciente falando francês,
e entrava outro falando português, saía este
e entrava outro falando espanhol. Então, eu trabalhava,
e ainda trabalho, mudando de língua, o tempo todo.
E isto me deu uma fluência nas 4 línguas que
foi muito proveitoso.
Foi
preciso um desejo de analista para escutar não só
em uma língua, mas em quatro línguas diferentes.
(Risos)
Creio que sim.
Como
foi se estabelecer - você disse que no começo
foi difícil, levou 2 anos para que encaminhassem pacientes
- em um país onde impera as psicoterapias do Self,
da rapidez, das psicoterapias breves?
Foi
outra experiência muito interessante. E é isto
o que realmente impera nos Estados Unidos. Mesmo os analistas
freudianos ainda estão trabalhando nesta linha pós
- freudiana, da Relação de Objeto. E a minha
experiência foi a seguinte: Pela minha formação,
eu me relacionava mais com os analistas lacanianos em Nova
York, que são poucos. Ainda há muito poucas
pessoas trabalhando com o ensino de Lacan lá. Lacan
continua sendo tomado como um filósofo entre outros,
e estudado desta forma nas Universidades. Não o relacionam
com a clínica.
A minha experiência mostrou o seguinte: que ainda é
bastante difícil para os americanos a questão
da psicanálise, tal como a estabeleceram Freud e Lacan.
A minha clínica é essencialmente de estrangeiros.
Atualmente eu não tenho nenhum paciente que seja americano.
Para não dizer que não tive, houve algumas pessoas
que me procuraram para entrevistas mas, que não permaneceram.
Então, eu trabalho essencialmente com gente de fora
dos Estados Unidos.
E
de que países?
Dos
mais diversos. As pessoas preferem se analisar em suas línguas
maternas, o que é evidente. Atendo pessoas do mundo
inteiro: da América Latina toda, da Europa, da América
Central. Muita gente de língua espanhola, brasileiros
evidentemente, franceses, ingleses, e até pacientes
tchecos, poloneses, italianos, que necessitam se analisar
em outra língua por que não encontram quem fale
sua língua materna. Mas americanos, não tenho
nenhum como paciente.
Provavelmente
porque o desejo deles passava por outro lugar. Justamente
por uma terapia breve, do self, do eu, doeu, para continuar
doendo. E olha para onde eles estão indo!
Exatamente,
tive um que me disse que preferia uma terapia de família.
A questão da terapia é muito pregnante nos Estados
Unidos, muito imediatista, querem quase um milagre para que
possam resolver o problema rapidamente. Como tudo na América,
a rapidez é uma coisa muito pregnante.
Há
todo um excesso: um excesso de obesos
.
Exatamente,
e o trabalho com o inconsciente nunca é um trabalho
rápido.
Você
continua trabalhando em Nova York ?
Sim.
Continuo trabalhando lá.
E
como você faz para viabilizar isto ?
Eu
vou de 2 em 2 meses e passo quinze dias lá, atendendo
todos os meus pacientes diariamente. E quando vou, também
aproveito para dar meus seminários, para dar algumas
supervisões, e até para fazer um grupo de estudos,
ou seguir algum grupo de leitura que esteja ligado com meu
seminário.
Em
relação aos pacientes, não houve nenhuma
desistência por conta desta mudança na rotina
de trabalho?
Não.
Na análise, o analista conta com a questão transferencial.
Quando alguém quer falar para um determinado analista,
é para aquele que quer falar e não para o outro.
A minha experiência me mostrou isto. No momento em que
eu disse que ia mudar de país e consequentemente teríamos
que mudar as condições para poder continuar
nosso trabalho, todos eles concordaram imediatamente e não
houve nenhuma desistência. Como analistas sabemos disso,
que temos que contar com a questão transferencial.
Como disseram Freud e Lacan, a transferência é
a mola que faz com que a análise funcione.
Sim.
Com o desejo, com o desejo de analista?
Sim,
com o desejo, pois sem o desejo de analista, não é
possivel estar como analista.
Antes
de começarmos esta entrevista, você me pediu
um tempo para atender o telefonema de uma paciente de Nova
York. Então seus pacientes têm esta possibilidade,
claro, de falar com você não somente quando você
vai a cada dois meses, mas poder falar algo que não
da para esperar e te telefonam?
Sim,
têm a possibilidade de me telefonar, me escrever, e
de me passar um e-mail, como eles preferirem. Isto é
uma coisa que na minha clínica sempre foi assim: os
meus pacientes sabem que podem me contactar a qualquer momento
que eles precisarem me falar.
Interessante.
Não são muitos os analistas que se dispõem
a isto pois acreditam que somente! podem escutar o paciente
na sessão, na consulta.
Nós
sabemos que o inconsciente não funciona assim. Às
vezes a angústia é muito grande e a pessoa realmente
precisa falar no momento em que está angustiado e não
dá para esperar para falar depois.
Não
da para deixar para semana que vem. Você fazia intercâmbio
com analistas de outros países?
Sim.
Eu tenho muito amigos na França, em Paris. Logo que
cheguei a Nova York eu convidei Claude-Noelle Pickmann, para
vir fazer um trabalho comigo, em Nova York e ela concordou.
E durante vários anos nós fizemos um trabalho
juntas na NOMOS. Ela vinha regularmente a Nova York e trabalhávamos
com as pessoas que frequentavam a Nomos. Isto resultou em
um grande congresso que conseguimos fazer em Nova York em
abril de 97. Um congresso cujo tema foi Sexuação.
Reunimos mais ou menos 170 pessoas, dos mais diferentes países.
Aproximadamente 70 pessoas apresentaram trabalhos.
Setenta
pessoas?
Realmente
foi um congresso muito interessante. O comentário é
que nunca se tinha visto um congresso de psicanálise
lacaniana em Nova York tão concorrido. Foi um trabalho
que levou meses de preparação. Fizemos 5 conferências
prévias, meses antes, preparando este tema com o pessoal
em Nova York. Vieram analistas da França, Bélgica,
para dar essas conferências prévias. Susana Palacios
e Ricardo Delfino foram aqui do Brasil. Então, foi
muito interessante esta preparação prévia,
para que o tema estivesse já mais ou menos trabalhado
no momento em que começamos o congresso.
Fora isto, tive a oprtunidade de conhecer muitos analistas
que passaram por Nova York, e estabeleci relação
com alguns deles, por exemplo com Jean-Pierre Lebrun da Bélgica,
com Nestor Braunstein, do México, e com muitos analistas
argentinos. Aqui no Brasil existe um intercâmbio grande
com analistas da Argentina.
Quais
são suas expectativas na sua volta ao Brasil, e projetos
em relação a ser Diretora da Escola da Causa
Analítica?
Eu
estou muito contente de ter voltado. Este é meu país,
eu realmente sentia muita falta do Brasil. Quanto à
Escola da Causa Analítica, minha expectativa é
de muito trabalho. Eu sempre trabalhei bastante em relação
à EDCA. Agora eu estou em uma posição
de direção. Você sabe que aqui na EDCA,
nós mudamos a direção de dois em dois
anos, ela é rotativa. Eu pensei que agora que eu estava
voltando ao Brasil era minha vez de tomar este trabalho, porque
outras pessoas já tinham tomado a direção
da Escola.
A minha expectativa é de realmente trabalhar muito
para que a gente, possa realmente fazer uma boa transmissão
da psicanálise. Boa, no sentido, de que não
é fácil fazer a transmissão da psicanálise.
Isto requer realmente da parte dos analistas uma certa disponibilidade,
uma certa dedicação a este trabalho. Então
é isto que a gente está pretendendo aqui na
EDCA. Porque nós temos feito durante estes anos todos,
um trabalho muito importante, muito grande em relação
à teoria e à prática, um trabalho muito
sério.
E eu posso dizer isto para vocês porque eu saí
daqui, e quando a gente se afasta um pouco, isto dá
uma pespectiva diferente para a gente analisar o que foi feito.
Então, eu sei que quando eu saí daqui eu senti
melhor tudo o que eu tinha ganho, tudo o que eu tinha aprendido
aqui na Escola.
E
foi o que você transmitiu lá em Nova York?
Foi
o que eu pude transmitir em Nova York. Claro que tem uma parcela
de trabalho meu, porque não deixa de ter uma parcela
de trabalho de cada um de nós, o que cada um faz com
isto que recebe. Não foi sem este trabalho. Mas eu
sei que nós temos realmente uma articulação
muito séria, muito profunda. E meu trabalho na direção
da Escola é no intuito de que isto possa chegar cada
vez mais a outras pessoas. As pessoas que realmente se interessam
pela psicanálise e por esta transmissão.
Nós
temos visto em alguns jornais, alguns analistas pouco crentes
em relação a psicanálise, dizendo que
a psicanálise está morrendo que existem muitos
psicofármacos, remédios e vitaminas que dão
alívios mais rápidos. Qual é sua expectativa
em relação ao futuro da psicanálise e
ao futuro da psicanálise no Brasil?
Devo
dizer que, em relação a isto, aos psicofármacos,
à crença em alívios rápidos, nós,
como analistas, sabemos que não é assim. Isto
apenas é um paliativo, isto não atinge as causas,
e não resolve o problema. Eu acredito que a psicanálise
tem sempre um lugar, tem sempre um campo. Ás vezes
as pessoas não querem saber daquilo que as causa, daquilo
que as faz sofrer. Mas eu vejo, por exemplo, inclusive nos
Estados Unidos, que depois de um certo tempo elas vêem
que isto não está resolvendo. Sabem que não
se pode dar alívio rápido, é preciso
tempo para poder trabalhar algo que é tão estrutural.
Aí não é possível um alívio
rápido
Eles
só deslocam os sintomas, mascaram.
É
somente um paliativo, e às vezes as pessoas até
precisam deste tempo e de que isto falhe, para que possam
chegar ao divã. Mas, eu acho realmente que a psicanálise
tem seu campo muito específico, este campo que Freud
abriu e que Lacan desenvolveu, e que não se pode fazer
de outra forma. Se a gente quer realmente chegar a resolver
um problema, para que o sujeito possa - como eu dizia ontem
- se sentir mais confortavel na língua, é preciso
fazer esta travessia na língua, pois você sabe
que é porque falamos que nós adoecemos. E neste
sentido, eu não gosto muito de dizer adoece, porque
fica muito ligado à questão da doença
mental, e não é assim.Todos nós, porque
falamos, temos alguns problemas e justamente é falando
que podemos resolver estes problemas.
Sim.
Falando a um analista, dirigindo essa fala enigmática,
esse desejo que não se sabe qual é, a um analista
que escuta e decifra este enígma do sujeito, que o
ajuda a fazer isto. Porque é o analisando quem faz,
mas não é sem a ajuda do Outro, do analista,
que possa orientar essa cura.
Exatamente.
E só um analista, justamente por ter sido escutado,
é que está habilitado a escutar uma outra pessoa.
Conheço e já li trabalhos de alguns analistas
aqui no Brasil- não sei lá fora como é
- que têm um trabalho intelectual muito interessante,
têm o nome na mídia, são reconhecidos
mas acho que faltou um trabalho de análise deles, eles
não têem escuta. Têm um trabalho intelectual
muito interessante mas não têm escuta de analista.
Porque
não é possível sem uma análise.
A formação de um analista basicamente é
a própria análise deste analista. Então,
se realmente a pessoa não passou por esta experiência,
não tem como acompanhar um outro nesta travessia da
língua. É preciso ter feito esta travessia na
língua para que o analista possa acompanhar um sujeito.
Para
transmitir isto a outros
Não
só transmitir, mas acompanhar. Pois o trabalho é
justamente acompanhar o paciente, cada paciente em sua travessia
na língua. Que vai ser particular de cada um. E se
o analista não fez esta travessia, ele não consegue
acompanhar, não consegue escutar.
Fica
impossível.
Sim,
pois não é que o analista saiba o que é
melhor para o outro. O analista tem que ir passo a passo com
seu analisando, nesta travessia. Para que o analisando possa
ir constituindo seu discurso e assim chegando mais próximo
ao seu desejo. E como eu dizia ontem na abertura da nossa
jornada (A justiça e a Liberdade), é isso que
pode fazer com que alguém seja um pouco mais livre
e um pouco mais justo consigo mesmo e com os outros. Porque
sem essa travessia na língua, não tem remédio
que resolva. Porque não tem remédio que faça
o milagre de que alguém possa fazer esse caminho, esse
caminho pelo discurso. Somente através da análise
é possível.
Muito
bem. Quero agradecer e dar os parabéns. Escutei seu
trabalho ontem, foi excelente gostei muito. E gostei muito
de estar aqui conversando com você e de que você
esteja de volta ao Brasil. Para continuarmos trabalhando.
Isso
mesmo. Quero agradecer a oportunidade que você me deu
de falar sobre isto que vem me animando há tantos anos:
a psicanálise.
Entrevista concedida à psicanalista Andreneide Dantas
, na Jornada da Escola da Causa Analítica "A Justiça
e a Liberdade" , em agosto de 2001 no Rio de Janeiro.
Beatriz
Azevedo - Psicanalista
Diretora da Causa Analítica
Contato: Rio de Janeiro (021) 2236-0563
Nova York (917) 864-9763
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