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DROGAS
: A FELICIDADE COMO UTOPIA
No
final dos anos 60 os Beatles afirmavam em uma de suas canções : “A
felicidade é uma arma morna”. Ninguém entendeu muito bem o que
estavam querendo dizer porque naquela época os valores estavam mudando,
a liberação sexual, a contra cultura, os prazeres imediatos estavam em
voga. Açoitado por duas grandes
guerras que destruíram parte
de uma cultura milenar, o mundo ocidental achou por bem viver prazeres
momentâneos, uma vez que havíamos atingido um ponto em que a
tecnologia ameaçava extinguir
toda a humanidade (e toda a obra humana).A ameaça não foi
afastada e a busca da
felicidade imediata ainda reina soberana representando um perigo tão
grande quanto o arsenal bélico desenvolvido nas últimas décadas.
Desde o início da psicanálise sabemos que há uma tendência em todo
organismo vivo, a regular-se pelo princípio do prazer que
conduz à busca de
uma satisfação imediata. Os animais respondem imediatamente a estes
instintos mas o homem, afetado pela linguagem, diferencia-se do animal
entre outras coisas, pela capacidade de adiar
a satisfação e produzir objetos
substitutivos. Ser humano significa ir além das condições
naturais; por sermos falantes, estamos imersos num universo simbólico
afastados do “natural”. Natural querendo dizer que nada mais no
homem obedece a instintos.
Os
objetos que construímos vão produzindo cultura, propiciando laços e
estruturando a sociedade. Mas podem também servir apenas para a manutenção
do narcisismo e responder a uma
proposta de satisfação isolada que rompe o corpo social e esgarça
seus laços. Pode propiciar o mais alto desenvolvimento humano mas, pode
também, projetar o homem num labirinto onde a deambulação impele à
destruição e à morte.
Felicidade,
então, é um conceito subjetivo relativo à nossa condição humana. O
homem pode tornar-se isolado e egoísta ludibriado por um sonho de
consumo onde o objeto torna-se um bem supremo tentando tamponar uma
falta que é estrutural e inerente a todo ser vivente. Nada, nenhum
objeto pode completar –nos. A
busca da felicidade através das drogas
é conseqüência deste engano: tentando aliviar-se de seus
sintomas, pessoas buscam cada vez mais caminhos promissoramente mais fáceis
e rápidos. Numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva,
onde a comunicação está a cargo dos aparelhos de televisão e dos
computadores, torna-se difícil para um jovem não cair vítima da ilusão
de que a felicidade pode
ser comprada. A falência da função paterna em nossa época, tem
produzido graves distorções. O pai, em sua função de operar com a
lei, impondo limites é aquele que permite ao filho organizar-se no
mundo e guiar-se pelo desejo. Quando uma criança não conta com a lei
do pai, não pode vislumbrar um futuro decente,
não pode ser escutada, não se sente incluída num projeto de
vida, o que lhe resta?
Fugir da vida das várias maneiras que encontrar: adoecendo,
isolando-se, consumindo drogas.
Podemos
pensar até que ponto um
jovem pode estar se identificando com este significante ”droga”,
que ponto atinge sua desvalorização para que considere sua vida uma
droga. “Eu sou uma droga”,
“ a vida é uma droga”, são frases que ouvimos com freqüência
consultórios.
O
que uma criança necessita para aprender a viver em comunidade,
é ter limites bem
definidos, aceitar
as frustrações como forma de adiar um prazer que pode sim, ser
alcançado, mas não a qualquer preço. A ilusão de que a felicidade
pode ser comprada e utilizada no momento em que se desejar,
leva a equívocos perigosos ou, como disseram os Beatles,
é uma arma morna.
Por
definição, droga não
se circunscreve às substâncias
não legalizadas mas a tudo que provoque alteração transitória
da personalidade ou do estado de humor. Quantos de nós temos
recorrido a estes paliativos para aliviar tensões e diminuir
a angústia? Muitas
vezes os jovens encontram em
casa o modelo no pai que toma uns drinques “inocentes”
ou na mãe que recorre ao antidepressivo para suportar as frustrações
do dia-a-dia. Antes de acusar um jovem pelo uso de drogas,
é necessário avaliar
a extensão de
nossa responsabilidade nos exemplos cotidianos.
Não todos os usuários são necessariamente dependentes e a
dependência não
é fruto do uso freqüente e indiscriminado. Ela aponta sim,
para uma condição do indivíduo que
está submetido a um gozo narcísico mortífero, onde o desejo
foi sacrificado pela obtenção de flashes momentâneos de um
prazer ilusório.
A pessoa assim escravizada pela droga não percebe que a felicidade
instantânea que esta lhe oferece, é uma arma voltada contra
si mesma.
Se o jovem não pode exercer sua condição de sujeito falante
- que é o que nos humaniza – resta a ele a condição de objeto,
droga, coisa sem valor. Alguns pais pensam que dando tudo
a seus filhos, estão fazendo o melhor, pensam que se nada
faltar, o filho crescerá feliz e saudável. Ao dar “tudo” esquecem-se
de dar ouvidos, escutar
(queixas, idéias,
alegrias, frustrações). Calar é uma forma
cruel de abandono, por isso a importância da
escuta na clínica. Ao falar de si, a criança, o jovem ou o
adulto, pode reconhecer-se como ser falante, pensante, produtor
de seu próprio destino, redator de sua própria história e
fiel a seu próprio desejo.
Joaceri
Merlin da Costa
Psicanalista, sócia da Clínica Escuta Analítica e membro
do Instituto Tempos Modernos em São Paulo.
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