|
Caso
D.
Trabalho
com neuropediatria, atuando na área de fisioterapia.
Antes de começar minhas leituras e estudos de psicanálise,
cada paciente novo que recebia, fazia a anamnese da patologia
e traçava um objetivo de reabilitação
física o mais precocemente possível, sem prestar
muita atenção na dinâmica familiar. Depois
que tomei consciência de que tudo que está no
corpo, no físico tem relação com os sentimentos
e desejos , meu trabalho mudou.
Quando D. chegou para atendimento fisioterápico tinha
dois meses de idade, com o diagnóstico de Síndrome
de Down. A mãe, muito depressiva, foi logo dizendo
que tanto ela como seu marido queriam muito esse bebê
e agora que ele nasceu , ela se sentia miserável por
ter um filho "deficiente".
No mais completo luto, a mãe conta que após
o parto, o médico que a atendeu veio ao quarto e disse:
"sinto muito , mas seu filho nasceu com um defeito genético
irreparável, que é a Síndrome de Down.
A senhora deve levá-lo ao geneticista para saber porque
isso aconteceu". Então explicou a ela tudo o que
pode se esperar de uma criança com tal síndrome
, como a deficiência mental , a hipotonia muscular,
disse que ele seria "sempre criança"; poderia
viver até a faixa dos trinta anos , talvez tivesse
problemas cardíacos , etc. Pronto! Estava estigmatizado
, selado o seu destino. Era para sempre uma criança
limítrofe.
Quando foi dito "defeito", ela sentiu como "se
uma pedra caísse em sua cabeça". Ninguém
quer parir um defeito, queremos ter um bebê, um filho
"completo e perfeito".
Conta também que, apesar de levar o bebê a muitos
lugares, "quase ninguém percebe que meu filho
tem síndrome." Uma coisa quase impossível,
visto que a Síndrome de Down, mostra todas as suas
características na face. As crianças com essa
síndrome têm características marcantes
no rosto, no formato dos olhos, orelhas e boca, logo, todos
que olharem poderão ver", conta a mãe.
Iniciamos a estimulação precoce, que consiste
em treinar os movimentos do desenvolvimento normal do bebê,
com a mãe sempre presente durante as sessões,
a fim de poder repetir os exercícios em casa e também
para poder escutá-la.
No início a mãe protegia D. de seus irmãos
maiores, "porque ele é muito frágil, é
diferente dos outros"; comecei então a pontuá-la:
o quanto ela frisava o diferente, e incentivá-la a
deixar D. aos cuidados e bagunças dos irmãos
mais velhos, porque ele não precisava ser "diferente",
precisava sim era do convívio com os outros como semelhante.
Ela foi seguindo minhas orientações e D foi
passando por todas as fases do amadurecimento e desenvolvimento
motor com sucesso, alegre e extrovertido.
Com 1ano e dois meses estava pronto para iniciar uma nova
etapa, andar sem ajuda.
Foi quando aconteceu....
D. começou a chorar durante a fisioterapia, fazia manha,
não queria ficar com a terapeuta e procurava o colo
da mãe, ficando agarradinho.
Resolvi então que a mãe ficaria fora da sala
durante a fisioterapia. D. entrava na sala chorava, gritava,
depois parava, voltava a chorar, parava novamente; a mãe
entrou em depressão e queria leva-lo embora para casa.
D teve este comportamento durante duas semanas, então
a mãe resolveu que " se D. não queria mais
fazer exercícios, era porque estava cansado e eles
( pai e mãe) resolveram que ficariam com ele em casa,
pois o seu filho estava doente e eles não queriam judiá-lo."
Então pontuei: doente? Ele está com que doença?
A mãe chorou muito e faltou durante três sessões.
Quando retornou com D. para a fisioterapia , disse-me que,
se ele chorasse muito, ela o levaria embora, pois não
aguentaria ouvi-lo chorar. Concordei. D entrou na sala e começou
a choramingar, então coloquei-o em frente ao espelho;
quando se viu refletido sorriu, depois olhou para a minha
imagem refletida acima dele, sorriu, virou em direção
aos brinquedos e começou a brincar como se nunca tivesse
acontecido nada. Uma semana depois começou a andar
sem ajuda, então chamei a mãe e disse que quando
ele atingisse equilíbrio e coordenação
suficiente para agachar-se, transpor objetos, ele teria alta
da fisioterapia e deveria ir para a escola onde se exercitaria
brincando acompanhado de amiguinhos da sua idade.
A mãe ficou chocada, pois não esperava receber
alta. Como receber alta da fisioterapia se ele tinha uma síndrome!
Novamente o peso do estigma da doença, onde só
se pode esperar pouco, quase nada.
Depois, ela me perguntou onde teria uma escola que fosse boa
para ele. Indiquei então a escola que meus filhos frequentaram
quando pequenos. Novo choque!
"Mas como?! Ele precisa de uma escola especial, de cuidados!"
Então eu insisti que quando ele estivesse pronto, deveria
conviver com crianças ditas normais, pois ele estava
evoluindo bem: bom equilíbrio, coordenação
motora, fazendo tudo que os bebês na sua idade faziam,
por isso poderia conviver com eles.
A convivência com crianças com "mais capacidade"
incentiva o aprendizado, se fosse colocado com deficientes
mentais, nada seria acrescentado e sim retardado.
Quando D. alcançou os objetivos traçados para
sua reabilitação, dei alta. Estava com a musculatura,
com tônus muscular perfeito? Não, tinha hipotonia.
Porém agora, a escola era a prioridade.
Dar alta foi muito gratificante. Não é uma coisa
que posso fazer com frequência. Agora D. tinha uma chance
de ir para a escola, conviver com outras crianças,
desgrudar da mãe e poder caminhar sozinho para uma
nova etapa de sua vida.
Demorou mais três meses depois dessa conversa para que
D. fosse matriculado na escola, devido ao medo e insegurança
da família em separar-se dele por algumas horas.
Quando finalmente foi matriculado na escola, seu desenvolvimento
foi muito bom, tanto o físico como o social. "Às
vezes leva para casa alguns hematomas, alguma mordida, porém
é normal pois também defende-se, morde, arranha
na luta por brinquedos. A mãe está feliz e ele
também.
No futuro vai precisar novamente da fisioterapia para postura,
fortalecimento muscular, mas tenho certeza que voltará
mais fortalecido emocionalmente.
Quando olhamos para um ser humano livre de preconceitos e
sem o selo do estigma, poderemos realmente enxergá-lo
como ele é , um sujeito de linguagem , portanto desejante.
Antonia
Lúcia M. B. Annicchino
Fisioterapeuta
Clínica
Precoce
Rua: Piauí, 55 - São Caetano do Sul -SP
Fone: 4224-2879
Clínica de Ortopedia Ipiranga
R: Cipriano Barata, 2281- Ipiranga -SP
Fone: 273-0644 6914-9554
|