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Aposentadoria...
da vida?
Uma
citação do livro "O Nomeável
e o Inominável" a última palavra
da vida, de Maud Mannoni: Calara fundo no pequeno Sigmund
Freud a lição materna: "Somos feitos de
terra e portanto à terra temos que retornar".
Amalie Freud, percebendo a dificuldade do filho em aceitar
o que ela tentava transmitir, retirou das próprias
mãos algumas escamas de pele, como amostra de terra,
para melhor demonstrar, ao futuro descobridor da psicanálise,
o ensinamento bíblico: "tú és
pó e ao pó retornarás" (gênesis,
III,19). Estupefato diante daquela encenação,
o menino acabou por se resignar ao destino da condição
humana e, mais tarde, ao se tornar um conhecedor da literatura
ocidental, não pode deixar de associar a essa cena
infantil algumas palavras de Shakespeare: "deves
uma morte à natureza". Sigmund Freud
revelou em "A interpretação dos
Sonhos" que aprendera com a mãe, e mais
tarde com os poetas, algo sobre o caráter inelutável
da morte.
Mas em sua prática clínica, numa escuta que
sobrepujava o que se sabia até então, o mestre
de Viena pôde perceber algo que não estava escrito
nas Santas Escrituras nem nos livros seculares que tanto amava,
"O homem não acredita na própria
morte", foi o que ele, sabiamente, apreendeu
da fala de seus pacientes. Dessas evidências, logo extraiu
uma consequência lógica que viria a se transformar
num dos aforismo mais conhecidos da psicanálise: no
inconsciente não há representação
da morte.
Ou seja,
o que Freud revelou ao mundo é que na outra Cena, lá
onde habita o desejo, o sujeito se crê imortal. Com
isso a questão da imortalidade ganhou uma nova dimensão:
a psicanálise, no caminho oposto a qualquer filosofia
ou religião, passa a sustentar que a condição
de mortal leva o sujeito a buscar no desejo sua imortalidade.
Sexualidade e morte são as pulsões por excelência
que, desde sempre amalgamadas, habitam o homem; e, ao constatar
essa realidade, Freud fundou uma ética da psicanálise
voltada para a escuta dos destinos dessas mesmas forças.
Aposentar-se…aponsentar da vida?
Retirarmo-nos
da vida?
Retirarmos
do trabalho não quer dizer retirarmos da vida. Não
quer dizer retirarmos dos relacionamentos sociais. Também
não quer dizer retirarmos das relações
amorosas. Muito pelo contrário.
Talvez
aí teremos mais tempo e poderemos criar mais posssibilidade
para nos relacionarmos com antigos amigos, fazermos novos
amigos e amantes.
Nos tempos modernos, quando conseguimos ultrapassar a dita
idade madura, chegamos numa idade onde o ser humano é
chamado de idoso.
Estamos no "Ano Internacional do Idoso".
E ai, que vamos fazer, com esse grande desafio para o novo
século que é a longevidade, onde a expectativa
média de vida dos seres humanos nunca foi tão
grande?.
No Brasil, a espectativa média de vida no início
do século era mais ou menos 34 anos,
em 1950 passou a ser de 43 anos.
No ano 2000, segundo projeções,
será de mais ou menos 69 anos, e em
2025 será de aproximadamente 75
anos.
Em suma em 2025 o Brasil terá 31,8
milhões de pessoas com mais de 60 anos.
E aí, que vamos fazer? Vamos continuar a idiotizar
o idoso? Achando que ele fazendo trabalhos manuais é
suficiente? Fazendo ginástica, só cuidando da
estética e do corpo físico é o suficiente?
Ou vamos trabalhar para que o idoso ou futuro idoso continuem
inquisitivos, curiosos, com amigos, com atividades sociais
e que trabalhem, se quiserem, para que a aposentadoria não
seja encarada como punição e sim como opção.
A posentadoria não quer dizer declínio. E sim,
anos a fio de trabalho e de dedicação do trabalhador
para com seu trabalho. Penso, que após estes anos,
o trabalhador possa optar. Se aposentar deste trabalho e escolher
fazer outra coisa, como por exemplo, entrar na era da informática
para acrescentar um dinheiro na sua pensão e ou acrescentar
mais uma produção na sua vida. Pois cada acontecimento,
no seu tempo, é um sinal de atividade, transformação
que pode provocar produção e criação
de outras possibilidades.
A questão
é, podemos ordenar as crises, ordenar o caos? Podemos
fazer das crises, dos caos começo de algo e não
seu fim?
Podemos fazer das crises da menopausa e da andropausa, da
mulher e do homem, o início de algo? A andropausa,
no homem, e a menopausa na mulher, são acompanhadas
de muito preconceito. Alguns homens interrompem abruptadamente
suas relações sexuais por medo de perderem sua
potência sexual. Agora, se estão numa posição
de onipotência sexual, com quase toda certeza irão
torna-se um impotente sexual, esquecendo que uma das coisas
que mantém o ser vivo é o amor, o carinho e
a ternura. E,com este esquecimento, o homem fica impossibilitado
de reinventar novas formas de carícias, toques e olhares.
As mulheres, na menopausa, sofrem, caem em depressão
porque perdem sua capacidade de serem mães. Esquecendo
que são mulheres não tiram proveito da possibilidade
de terem relações sexuais mais livres, sem o
temor de engravidar.
Por falar em onipotência, lembrei-me do que escutei
de um adulto jovem. "Se todo velho chagasse a
velhisse numa posição de que não sabe
tudo, de que ainda tem muito a aprender é porque viveu
bem e vive melhor".
Quantas vezes escutamos de alguns idosos que "agora já
não prestam para nada e que a vida perdeu sentido…"
– esquecendo e anulando o que fizeram. Ou então,
também escutamos "não tenho mais nada para
aprender, já aprendi tudo dessa vida". Esses idosos
poderão, no futuro, ter ajuda econômica ou piedade,
mas para receber amor precisamos aprender a amar.
Ainda é tempo, é só querer, a aprendizagem
faz parte da vida. Uma das causas da dor de existir é
a ignorância. E esta ignorância pode gerar ódio,desespero,
vícios e paixões. Ou pode ter como produto o
desejo de saber.
Então, porque não colocarmos este desejo de
saber em prática – seja em que idade for. Pois,
se abolirmos nosso desejo estaremos apoiando e acompanhando
a violência com que muitas das vezes, a política
e a ciência tratam o idoso – fazendo dele um doente
incurável.
Vamos fazer do idoso um ser mudo e impotente? Vamos impor
ao idoso o temor à vida para fazê-los temer a
morte? Vamos exilar os velhos da língua e impedi-los
de fazer laço social?
Outro dia escutei de um idoso: "Meus filhos e
meus netos não me procuram. Me sinto como se fosse
esta cadeira que estou sentado. Um móvel, algo que
se pode colocar de um lado para o outro – tanto faz
estar aqui ou ali".
Vamos culpar a sociedade as instituições, os
familiares? Ou podemos implicar este sujeito, ditos de muita
idade, a poder se perguntar o que fizeram para que isto acontecesse.
O que fizeram para que tivessem este retorno, seja dos filhos
e dos netos. O que fizeram para que os amigos se afastassem.
Tinham amigos? Fizeram laços sociais? Ou se anularam
em prol dos outros? E aí chegam numa idade em que não
podem mais fazer para os outros passam a cobrar dos outros.
Se sacrificaram tanto pelos outros que agora querem que os
outros se sacrifiquem por eles. Subestimando sua própria
existência, substima a existência do outro. Não
estarão fazendo o mesmo que a ciência, mais precisamente
a medicina, que esquece que há um corpo doente, tratando
o órgão e não o doente. Esquece que somos
seres falantes e que falar tem consequências no corpo?
Em nossa cultura podemos constatar que a ciência, a
sociedade, de modo geral, tenta reduzir as diferenças
através de meios de apropiação totalizante.
Nos dizendo que fazendo trabalhos manuais é bom para
a artrite. Ou, dizendo, os idosos têm que fazer ginástica
- para cultuar o corpo e dar força a nossa sociedade
que é dominada pelo mito da beleza em busca da eterna
juventude.
Esses mecanismos de apropriação totalizante
bloqueiam os processos de singularização. Processos
esses de singularização que os asilos e a maioria
das nossas instituições tentam apagar e, muitas
vezes, conseguem apagar, calando a voz do idoso.
Pacientes que chegam ao consultório com discurso que
nada mais resta a fazer do que esperar a morte esquecem que
o tempo dá justamente a presença do acontecimento.
Estes pacientes, se implicando naquilo que dizem, se implicando
no tempo do inconsciente, no tempo da abertura do inconsciente
– que é um tempo relâmpago onde surge o
desejo – podem fazer outra coisa do que simplesmente
esperar o tempo. Será que podemos não só
adicionarmos anos às nossas vidas e sim darmos vida
aos nossos anos?
Muitas das vezes os idosos sentem-se inaptos para os tempos
modernos, afastando-se do convívio social. A segregação
progressiva leva a um complexo isolamento. E, se não
mata o desejo antes da morte chegar, é possível,
nestes tempos modernos, fazer laços sociais.
Neusa
Lais Coelho
Psicanalista - Membro da Escola da Causa Analítica
Instituto Tempos Modernos
Trabalho
apresentado na Jornada "Violência - Mancha Social"
organizado pelo Instituto Tempos Modernos em São Paulo
no Sesc Vila Mariana, em 22 e 23 de outubro de 1999
Tel:
(0**21) 2236-0563 - Fax: 512- 4359
E-mail: edca@centoin.com.br
OBS: Para entrar em contato com Neusa Lais Coelho: (0xx21)
2714-8502 / (0xx21) 2704-0060
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