|
Anorexia
e Desejo
A anorexia apresenta-se hoje
como uma das patologias típicas deste final de século.
Há vários aspectos da anorexia que podem ser
abordados: o social, o médico, o religioso, o psicológico.
À primeira vista ela veste a máscara de um mal
social, ou seja, adolescentes presas de um ideal de magreza
imposto pela mídia. Cultura da imagem, que impõe
a essas jovens, conceitos e valores sobre a estética
onde o normal e o patológico se confundem apresentando
fronteiras cada vez mais difusas. Ideal feminino de magreza
que desafia a vida.
Nosso objetivo neste texto é pontuar alguns segmentos
desta patologia que pertencem ao campo da psicanálise.
Em nosso entender, nenhum movimento social exerce sua força
a menos que encontre respaldo em poderosos subsídios
inconscientes. A sociedade e a cultura podem provocar a emergência
- em forma de desajustes - de aspectos mal constituídos
em nossas estruturas psíquicas. Não fossem esses
aspectos mal constituídos do feminino, não haveria
este poder.
A
abstinência alimentar da anoréxica nos remete
à abstinência de todo o desejo.
Para
pensar o desejo, nada melhor que recorrer a Hegel pois este
filósofo alemão do final do iluminismo foi quem
melhor o descreveu. Para Hegel, a questão do desejo
está ligada à questão do sujeito. Ele
nos diz que a consciência caracteriza-se por uma atitude
passiva frente ao mundo mas a auto-consciência constitui-se
através da ação. A consciência
é consciência do objeto mas não é
consciência de si mesma.
Absorvida
na contemplação do objeto, ela nele se perde
e nele se aliena. Ela é literalmente uma consciência
sem eu. O indivíduo absorvido e perdido no objeto pela
atitude cognitiva, não pode revelar-se a si mesmo senão
pelo desejo. Se o conhecimento o mantém passivo, (contemplativo)
o desejo impele-o à ação. Esta ação
é fundamentalmente negadora posto que seu objetivo
é a transformação do objeto desejado.
Assim, por exemplo, o desejo de comer, para ser satisfeito,
implica a assimilação, destruição
e transformação do alimento.
É
também o desejo que vai operar a oposição
entre consciência de outra coisa e consciência
de si, entre o não-eu e o eu. Só há eu
no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo.
Assim, enquanto o conhecimento revela o objeto, o desejo revela
o eu.
O
eu do desejo, tal como o próprio desejo, é um
eu vazio! A determinação desse vazio vai ser
feito em função do não-eu negado.
Se o não-eu negado é um não-eu natural,
o conteúdo do eu que se forma pela ação
negada será também natural. A um desejo natural
corresponde portanto, um eu natural (animal). Para que o desejo
supere sua forma natural e se constitua como desejo humano,
são necessárias 2 condições:
1.
que o desejo se volte para um objeto não natural
2. a existência da linguagem.
Para que o desejo se constitua como desejo humano , é
necessário que ele
se dirija para um objeto não-natural. Mas, para Hegel,
o único objeto não natural é o próprio
desejo. O desejo humano é pois, desejo de outro desejo
sendo o desejo um vazio.
Mas, se o desejo humano é sempre desejo de outro desejo,
como justificar o fato de que, enquanto homens, desejamos
objetos?
Hegel responde que o desejo humano volta-se para objetos na
medida em que estes se constituem como objetos do desejo de
outros homens. E, o mais importante é que, nesta medida,
ao nos apossarmos desses objetos, estamos afirmando nosso
domínio sobre o desejo do outro. O que o desejo humano
deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado
ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor
humano.
Esse reconhecimento só pode ser feito pela palavra,
Segunda condição do desejo humano. Fora da linguagem
não há eu humano.
É
essa luta pelo reconhecimento que vai constituir o tema central
da chamada dialética do senhor e do escravo ou figura
da dominação e da servidão em Hegel.
A psicanálise nos coloca , desde o início, no
registro da linguagem. O estudo dos lapsos, dos atos falhos,
dos sonhos, não fazem mais que apontar para uma fala
que foi interditada. A linguagem produz uma desnaturalização
do mundo e, por força disto, uma desmaterialização
do próprio corpo.
Para a psicanálise, a idéia de um corpo humano
natural não tem sentido. Humano e natural são
predicados contraditórios. O corpo humano é
um corpo capturado pelo simbólico.
O desejo animal é determinado pela falta do objeto
que será preenchida pelo próprio natural.
O desejo humano é determinado por um vazio cujo objeto
é um outro desejo. Podemos dizer que para o homem,
o objeto natural foi perdido. Para a psicanálise, ele
nunca foi tido.
Este vazio se sustenta como um buraco no ser, análogo
ao oco de uma árvore ou de uma caverna. O ser do oco
ou da caverna, consiste em ser um vazio, mas nem por isso
pode ser identificado ao nada. O vazio do oco pode ser a morada
de um pássaro como o vazio da caverna foi e continua
sendo morada de homens. Se retirarmos a árvore, não
permanece o oco. O vazio do oco nos remete à árvore
assim como o vazio no ser nos remete ao ser.
O que deseja a anoréxica?
Ser o desejo-em-si, ser o vazio-em-si ?
Não desejar nem ser desejada. Domesticar o desejo.
Em 1873, um médico francês, Lasegue, descreve
a anorexia com características psicológicas
ressaltando o contentamento e a complacência na atitude
da anoréxica. Ele diz: "Prazer do auto-controle,
prazer de controlar o médico, prazer auto-erótico
mantido pelo aguçamento da fome". E é Lasegue
quem previne: a anoréxica é toda poderosa na
sua anorexia. A ela, nada lhe falta.
Apagando de seus corpos todo sinal exterior de feminilidade,
as anoréxicas desafiam o desejo desfilando amenorréicas
e lisas, ausentes da sedução do alimento, longe
da sedução dos homens.
A análise é o que pode confrontar a anoréxica
com a falta , castração, que nos coloca a todos
como sujeitos faltantes e portanto, como sujeitos desejantes.
Joaceri
Merlin
Trabalho
apresentado no encerramento do ano de 1998 no ITM - São
Paulo.
|