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Análise
com Crianças
Em
que momento uma criança é trazida para análise?
No momento em que o sintoma da criança incomoda seus
pais, é caracterizado uma demanda dos pais a um analista.
Como a primeira demanda será sempre dos pais ou dos
adultos que se responsabilizam pela criança, já
que esta não vem sozinha à análise, é
necessário que escutamos esses pais. A transferência
também precisa ser dos pais ao analista, estes vem
buscar uma solução ao seu incômodo, tentando
"entregar" o filho para o analista resolver o "problema".
O analista precisa escutar essa demanda e transformá-la
em transferência, implicando estes pais nas queixas
e sintomatologia do filho.
Em geral, os pais negam o próprio desejo em relação
ao nascimento do filho, porque muitas vezes, odesejo é
inconsciente, mas sabemos que um filho não pode ser
um "acidente". Um "desvio",
ou "mandado por Deus". A negação
do desejo em relação ao filho, impede a legitimidade
deste, prejudicando sua existência na estrutura familiar.
É muito comum vermos crianças crescerem em lugares
equivocados em sua familia, como filhos que ficam no lugar
de companheiros da mãe, ou como pais dos próprios
pais.
Tive a experiência em análise de uma mãe
que considerava seu filho como marginal, "melequinha",
ou como "a criança", sem situá-la
como filho, e este permanecia nesse lugar, comportando-se
como tal, cometendo pequenos furtos, também chamava
a mãe pelo nome, e não por mãe, já
que esta não deixou o lugar de filha quando de seu
nascimento, criando este filho com a mãe (avó
de seu filho), e eliminando qualquer possibilidade do
pai dele participar de sua vida. Este garoto, em sua análise,
mostrou claramente o quanto o seu desejo estava perdido no
desejo da mãe, tinha dificuldades de se diferenciar
e se separar dela.
Esse lugar equivocado traz o gozo para os menbros dessa família
e também para a criança, que fica indentificado
como falo da mãe (tentando preencher a falta desta)
e os dois lados relutam em sair desse gozo, , até porque
muitas vezes, a criança, se angustia frente à
separação da mãe por não ter limites,
por não ter a interdição paterna funcionando.
A análise é procurada quando o sofrimento do
sintoma extrapola seu gozo, e o analista pode fazer funcionar
esta interdição ao Gozo. Para tanto além
de ter atenção flutuante (escuta), o
analista precisa mostrar os limites à criança,
não respondendo como pai ou mãe da criança
que está em análise, mas mostrando á
ela a responsabilidade pelos seus atos.
A análise com crianças traz à tona o
mito familiar, transmitida à criança pelo discurso
dos pais e familiares, a sua história é primeiramente
traçads pelo desejo de seus pais, através da
análise ele descobre que pode mudar esse traçado
original e criar outro.
O diagnóstico em psicanálise é diferente
do que na psicologia ou na medicina, não é realizado
através da notificação de sintomas (medicina)
ou na avaliação da personalidade, mas sim em
relação à travessia do Complexo de Édipo
que traz a dimensão do registro de Simbólico,
para tanto estão implicados a triangulação
mãe-pai-filho. A travessia do Complexo de Édipo,
determina como a criança vai se situar frente ao desejo
materno, se vai continuar identificada como falo da mãe
ou vai ser interditada pela Função paterna.
A funçãopaterna (Nome-do-Pai) estando
presente no desejo mterno, isto é, a mãe desejando
além do filho, possibilita que a criança se
situe no mundo como um ser desejante. O diagnóstico
na análise com crianças consiste em verificar
que medida o filho está como objeto da mãe
(do desejo desta). O sintoma da criança aparece
como o revelador da estrutura familiar. As entrevistas preliminares
com os pais são necessárias para que apareçam
as verdades do discurso familiar. Isto é possível
à medida que, com a escuta aos pais nas entrevistas,
transformamos sua demanda em transferência, que escutem
o que dizem, oque sabem inconscientemente e possam querer
saber mais. Uma mãe veio até mim para querer
saber o que acontece com seu filho de 7 anos que manifestou
seu desejo de morrer. Através do que dizia, pode ouvir
que seu filho estava sem o lugar de filho em sua estrutura
familiar, e que ela e seu maridotambém estavam em lugares
equivocados, ela ainda não se situava como adulta,
pois apresentava muita insegurança em separar-se da
mãe, e o marido, ainda procurava o reconhecimento e
valorização do próprio pai. Escutando
o que dizia, através de minhas pontuações
e marcações sobre o que dizia, pode manifestar
o desejo de querer saber mais, o que a conduziu a querer fazer
sua própria análise.
Na análise com crianças também utilizamos
as regras fundamentais da psicanálise: a associação
livre, a atenção flutuante e a abstinência.
Esta última é sobre o saber do analista, este
precisa se abster para poder escutar o que é dito crinça,
através de suas palavras, jogos e desenhos, não
podendo assim, escutar essa criança como filho, mas
também como sujeito do inconsciente que pode advir
pelas pelas formações do inconsciente (como
é na análise com adultos). A diferênça
é que a criança também "diz"
com jogos e desenhos, ela traz seus significantes quando joga
ou desenha e fala sobre eles. Estes recursos não podem
ser "interpretados" pelo analista, aqui também
tem que se abster de qualquer saber prévio.
Enquanto a criança brinca, o adulto fantasia, ambos
fazem parte da realidade psíquica, A brincadeira da
crinça é simbolizada e tranformada em fantasia
no adulto. O lúdico tranforma a situação
desprazeirosa em prazer, é uma forma de enfrentar a
angústia da castração, como também
o dezenho, pois o próprio ato de desenhar traz a representação
de uma perda, o que está desenhado ou escrito não
está presente, está simbolizado. Os jogos trazem
os significantes que ainda não conseguem ser falados
pelas crianças, por isso é que eles vão
se modificando á medida que á criança
"cresçe".
A transferência na análise com crianças
primeiramente é a dos pais, ou de quem a traz á
análise (como já citei acima), a criança
estabelece a transferência com o analista quando o inclui
em sua demanda, também o coloca no lugar de Sujeito
Suposto Saber, isto acontece quando o implica em seus
jogos e produções - quando brinca e desenha
para o analista - Os sonhos também podem aparecer na
análise com crianças, e também como jogo
e o desenho produz significantes através da linguagem.
O fim da análise para uma criança é quando
descobre que não é somente filho, mas também
um sujeito, capaz de responsabilizar-se por seus atos e escolhas,
podendo assim, prosseguir como desejante. O termo desenlace,
tão bem colocado por autores psicanaliticos é
bem vindo, ja que a criança, com a análise,
pode se desenlaçar de ser objeto do Gozo materno, quando
a internação paterna não está
operando suficientemente.
Leila
Aparecida Martins
Psicóloga - Clínica Intervita - S. Caetano do
Sul - Tel.: 4224-6799/4224-4082
Trabalho
apresentado na Conclusão do curso "Psicanálise
com Crianças" no Instituto Tempos Modernos.
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