| Afeição
Confesso-lhes
que me encantou quando recebi o folder da nossa Jornada e
constatei que ilustrava perfeitamente o tema desse trabalho
que hoje lhes apresento, pois escolhi falar justamente daquilo
que nos afeta e que não, necessariamente, se expressa
em nossas feições.
Afetos, sentimentos, amor, paixão. Termos que se entrelaçam
e que são tomados como sinônimos em nossa vida
quotidiana e pela linguagem popular. Na fala das pessoas,
é comum encontrar-se a oposição entre
afeto, sentimento e intelecto ou razão. E a forma preconceituosa
que temos de tratá-los, remonta a séculos mesclando
uma dimensão moral de ética que supõe
a paixão como algo que afeta o valor ético de
nossa condição, tendendo a propor ao intelecto
aquilo que nos representa no mais alto grau e que a paixão
só vem desmerecer. Antes mesmo do cristianismo, os
estóicos já sustentavam a idéia de que
a paixão, o sentimento, o afeto, aparecem como uma
perturbação do ente, donde sua proposta ética
é prescindir ao extremo possível destas afecções.
A paixão vai contra a razão correta, do juízo
acordado à verdade. Para outras escolas do pensamento,
aparece centrada a oposição do afeto em relação
à vontade, confronto entre paixão e vontade.
Em outras posições, por exemplo, em Spinoza,
resulta que a essência do homem é o apetite que
homologa na posição subjetiva, o desejo. A frase
clássica espinosiana é que a essência
do homem é o desejo e tudo que acresce a essência,
terá um valor ético positivo, por isso a alegria,
o amor, são sentimentos ou afetos valorizados positivamente
enquanto a tristeza, ao diminuir o desejo, é um erro.
E o ódio que contribui para sustentar esta tristeza,
também! Freud, no Projeto de 1895, diz que a vivência
de satisfação e a vivência de dor vão
constituir dois resíduos: os estados de desejo e os
afetos. Em Além do princípio de prazer e em
Inibição, sintoma e angústia, Freud retoma
a questão da dor entendida como um rompimento das barreiras
antiestímulo como decorrência de uma estimulação
externa muito forte. No texto de 1926 ele compara a dor, quando
persistente, ao estímulo pulsional, ambos funcionando
como estímulos constantes e contra os quais as proteções
internas mostram-se ineficazes.
Para pensarmos
o tema em nossa prática, que assento têm os afetos,
os sentimentos, as paixões? Qual sua relação
com o corpo? Porque as mais variadas posições
já se apresentaram, desde as que tendem a pensar o
corpo como máquina, onde os sentimentos nada mais são
que derivações das sensações,
até a oposição cartesiana quando Descartes,
para distinguir res extensa e res pensante, situa os sentimentos
como afecções da alma. No discurso de Erixímaco,
no Banquete, o amor é citado como afecção.
Nesta relação de causalidade quem afeta o quê?
Para William James, é porque choro que estou triste
ao passo que para nossa concepção tradicional,
é uma relação inversa: é porque
estou triste que choro. Para outras perspectivas, as emoções,
os afetos, têm uma intencionalidade, surgem em relação
a algo ou alguém que os causem. No início de
sua clínica, Freud provocava em suas pacientes histéricas,
o que chamou de ab-reação, liberação
do afeto retido que apontava para a direção
da cura.
Para nós,
psicanalistas, os afetos trazem uma reflexão que nos
implica na dimensão do ato, nos faz inferir o modo
no qual o analista se situa em sua prática, na transferência.
Vamos trazer mais uma vez à tona, o caso Dora, onde
fica explícito, pela primeira vez, na direção
da cura analítica, o conceito de transferência.
Dora, a jovem de 18 anos a quem o pai traz ao consultório
de Freud porque está muito preocupado. Encontrou sobre
a mesa, uma carta onde a filha anunciava sua intenção
de despedir-se deste mundo. O pai conta a Freud que a jovem
está muito suscetível, ameaçando desmaios
por discussões banais, briguenta, querelante, com sensações
de tédio, acompanhados de sintomas físicos como
tosse e afonia que aparecem e desaparecem e supõe que
tudo isso tem a ver com a relação com um casal
de amigos chamados no historial de sr. e sra. K. Dora é
levada então para a consulta e conta sua versão.
Que conta Dora? Que há alguns anos, sua família
ia de férias para uma cidade de veraneio chamada B.
porque o pai necessitava recuperar-se de uma tuberculose.
O pai de Dora já tivera sífilis, desprendimento
da retina, tuberculose; conhecem este casal e a sra. K. mostra-se
muito solícita , amável e cuidadosa, ao contrário
da esposa que não se ocupava do marido. Dora percebe
que, com o passar do tempo, seu pai e a sra. K. tornam-se
íntimos, contando a Freud relatos da quantidade de
vezes que os dois se encontram. Esta é parte de sua
queixa: meu pai e a sra. K. mantêm relações
ilícitas. A outra parte da queixa refere-se a algo
que lhe concerne, ou seja, que o sr. K. esteve durante todo
este tempo, cortejando-a, enviando-lhe um ramo de flores diariamente
e que todos sabiam e fingiam ignorar. O sr. K. um dia, passeando
com Dora à beira de um lago, faz uma declaração
de amor mas diz algo que, ao invés de faze-la aceitar
o galanteio, a faz desferir tremenda bofetada e não
querer mais nada com eles. Freud surpreso, pergunta que disse
este homem para exasperá-la tanto. E Dora recorda que
ao final da declaração o sr. K. lhe afirma:
minha mulher, a sra. K. não é nada para mim.
A partir daí, Dora fica dominada pela paixão
do ódio. Presa desta emoção, exige que
seu pai rompa com a sra. K., denuncia o pacto implícito
nesse quadrilátero com a cumplicidade colateral de
sua própria mãe que funcionava como um
"zero à esquerda". Dora pretende
que se rompa isto que, numa segunda volta de sua análise
com Freud, ela confessa que também havia sustentado.
Porque Dora confessa a Freud sua implicação
na trama? Talvez porque ele está disposto a ouvi-la
e acreditar naquilo que ela lhe conta, neste primeiro tempo
da análise, Freud subtrai-se do lugar que, a princípio,
lhe estava destinado, o de candidato ao ódio que até
então era dedicado ao pai. Dora declarava cruamente:
meu pai me entregou ao sr. K. em troca de ficar com a sra.
K., sua mulher. Na medida em que Freud não o nega,
Dora pode avançar e dizer que ela era cúmplice,
que cuidava dos filhos da sra. K. com esmero exatamente nos
momentos em que seu pai corria para encontrar-se com esta
mulher.
No momento seguinte Dora segue surpreendendo Freud ao relatar
que, apesar da sra. K. tê-la traído e contado
de suas consultas a respeito dos temas sexuais, segue admirando-a,
sem manifestar nenhuma reprovação por ela. A
análise avança um pouco mais e no relato de
Dora, a sra. K. aparece como a única possibilidade
de encontrar alguma resposta a um enigma que ela não
lograva elucidar. Era impossível, no caminho que sua
mãe lhe oferecia, uma mulher posta de fora da série,
ausente no desejo do marido, uma resposta sobre a feminilidade.
Que acontece então, na análise de Dora, para
dar a Freud este final homólogo ao que deu ao sr. K.?
Dora
sustentava este quadrilátero na condição
de sujeito que busca um lugar sem mais remédio, como
tantos de nós. Que opções havia para
uma menina cuja mãe se exime de cuidar do marido enfermo?
Deixar--se consumir, como aponta o primeiro sonho, pelo incêndio
amoroso entre ela e o pai? Não seria melhor buscar
outra que apague essas chamas? A sra. K., como todo sintoma,
foi um remédio negociado. Dora aceita que seu pai deseje
a sra. K. na condição de que, num mais além,
persista o amor por Dora. Afirmação que faz
Lacan em "Intervenções sobre a
transferência" implicando em que haja
uma estrutura equivalente onde Dora sustenta que o desejo
do sr. K. por ela não exclua o amor por sua esposa.
Que escuta Dora quando o sr. K. lhe diz "minha
mulher não é nada para mim"? Se
a sra. K. não é nada para ele então Dora
não é nada para o pai.
Podemos
pensar então que sua ameaça de suicídio
seja puro teatro ou está dizendo desta dor em que havia
se convertido sua existência, desamparada por uma mãe
que não responde e desalojada do lugar em que se sustentava
pelo suposto amor de seu pai? Ali descobre Freud que, por
trás do ódio que exprime por seu pai, Dora está
afetada na desilusão de amor por seu pai e também,
pelo amor sublimado à sra. K. Dora está afetada
pela paixão em sua dimensão imaginária,
sentimento, Lacan diz senti-ment. E nos fala de três
paixões: paixão de ódio, paixão
de amor e paixão da ignorância; porque o sentimento,
enquanto dimensão imaginária do afeto, nem sempre
implica um valor negativo. A paixão, em qualquer de
suas formas e sempre que possa encontrar seu limite, nos diz
Lacan, é também uma via de realização
do ser.
Temos
o sentimento, por um lado que levado ao extremo se converte
em paixão e o afeto que não é coincidente
com o sentimento.
De que estava Dora então, afetada? Afetada em seu ser
como todo vivente humano, pelo amor e pelo ódio, trata-se
então do afeto, daquilo que tenta remediar no amor
ou no ódio a mesma situação que padecemos
para instituirmo-nos como sujeitos numa dimensão que
poderíamos chamar de exílio. Cada um de nós
sofre, em distintos momentos, deste extremo desamparo que
tentamos remediar como podemos, e um dos menos piores, ainda
é o amor. O amor é o afeto que surge ante a
presença do outro, do outro com o qual procuro um consolo
ante meu exílio. Dora encontra-se agora na mais absoluta
solidão: fui objeto de negociação, diz
a Freud. Se a análise pudesse ter avançado,
se Freud não houvesse se identificado ao sr. K. , quem
sabe houvesse para Dora a possibilidade de desidealizar este
amor pelo pai e o ódio, convertido em motor a ajudaria
a buscar mais além destes personagens aos quais permaneceu
fixada. A análise propicia que, no desfiladeiro que
discorre entre ambos os afetos, o sujeito avance até
o encontro de sua condição. Num primeiro tempo
na dimensão imaginária do amor, no segundo tempo,
descobre-se que não se trata apenas de fazer-se amar
senão de sustentar o lugar de amante. Como sublinha
Sócrates no Banquete, amante significa que busco no
outro, aquilo que me falta, que quando alguém ama está
dizendo "amo porque há algo que me falta".
A análise propicia que possamos arrancar uma máscara
de riso que contradiz o desespero de um ser preso a uma realidade
que simula ou uma máscara de dor que simula um gozo
do qual não se quer desprender. As máscaras,
imprescindíveis para tornar possível o convívio
social, também geram equívoco e mal-estar e
estão, entre tantos outros objetos, como aquilo que
cai no final de análise. O sentimento que se mostra
na face que oferecemos ao outro, não só não
diz o que sentimos como também vela aquilo que nos
afeta. Por isso podemos afirmar que o que sentimos não
necessariamente coincide com o que nos afeta. E aqui, podemos
falar da abstinência do analista, que se sustenta no
desejo do analista, esse desejo que permite estabelecer diferença
entre o ideal e o objeto, que permite rearticular o sujeito
à sua própria pulsão. Numa análise,
o analista não usa máscaras mas sustenta a transferência
naquilo que Lacan chamou, muito apropriadamente, de semblante.
A vivência de satisfação e a vivência
de dor vão constituir dois resíduos: os estados
de desejo e os afetos. Em Além do princípio
de prazer e em Inibição, sintoma e angústia,
Freud retoma a questão da dor entendida como um rompimento
das barreiras antiestímulo como decorrência de
uma estimulação externa muito forte. No texto
de 1926 ele compara a dor, quando persistente, ao estímulo
pulsional, ambos funcionando como estímulos constantes
e contra os quais as proteções internas mostram-se
ineficazes.
A repressão provoca uma ruptura entre o afeto e a idéia
à qual ele pertence, cada um passando por vicissitudes
isoladas.
Caso
Dora - Vol.
XIV – pg. 200
Projeto
– 1895
Vivência
de satisfação ------ vivência de dor
Prazer
---------- desprazer = afeto
Joaceri Merlin, Agosto de 2003
Trabalho apresentado na Jornada do Rio de Janeiro "Os
afetos na vida cotidiana"
Escola da Causa Analítica – RJ
Tel: (0xx41) 335-2539
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