|
A
Identidade do Adolescente e a Formação de Grupos
A adolescência é
um fenômeno biológico, psicológico e social.
Ocorrem modificações visíveis no corpo
e outras que não podemos observar. No plano psíquico,
também algumas alterações são
observáveis, a maior parte se dá silenciosamente.
Socialmente também há mudanças e é
neste plano que os dois fatores anteriores vão se intrincar
e determinar a forma de inserção do sujeito
no mundo.
É
uma crise necessária para atingir a maturidade. Sem
estas alterações, o sujeito não pode
passar de criança a adulto. A identidade do adolescente
também vai sofrer transformação. É
a etapa decisiva para o processo de desprendimento que em
psicanálise denominamos castração. É
o início da maturidade que permitirá ou não
a emergência do sujeito liberto da proteção
familiar.
No início ele vai debater-se entre o impulso ao desprendimento
e a defesa que provoca o medo da perda do que já é
conhecido.
É
um período de contradições, confusões,
ambivalência, gera tensões e desavenças
no ambiente familiar e circundante. Este quadro pode complicar-se
porque os pais, nesta fase, sofrem uma revivescência
de sua própria adolescência.
A crise pode ficar tão intensa que algumas pessoas
podem confundir o quadro normal da adolescência com
estados patológicos.
Não é só o filho que deve desprender-se
dos pais, estes também devem desprender-se da criança
e evoluir para uma relação com o filho adulto,
o que impõe muitas renúncias de ambas as partes.
No crescimento do corpo do filho, os pais antevêem a
velhice e a morte. Há uma queda de posição,
o filho já não idealiza o genitor como líder
ou herói.
O adolescente oscila entre a regressão e o crescimento.
Ouve dos adultos que o cercam, ora que é um adulto,
ora é uma criança. A aparição
dos sinais de crescimento no próprio corpo e a mudança
de posição, encantam e assustam ao mesmo tempo.
Aceitar a condição de adulto, um corpo novo,
uma nova identidade, não é tão fácil
como gostaríamos que fosse . As modificações
podem ser sentidas como deformações.
As condições familiares e culturais podem favorecer,
demorar ou precipitar o desenvolvimento mas não podem
impedir que o processo ocorra. Na infância, tudo se
passa num jogo de "como se ", que na adolescência
vai se transformar em SIM ou NÃO. Que acontece se os
pais não permitem que o adolescente exercite sua vontade,
seu desejo?
Quando os pais não suportam o advento deste sujeito,
este não pode desabrochar. Sem expressão, ele
se cala e quando falta a palavra, o comportamento fala. Em
psicanálise sabe-se que na falta de uma palavra verdadeira,
um sintoma vem ocupar este lugar.
É
neste momento que a função paterna precisa estar
atuando . A lei do pai não é letra morta mas
palavra significada. Por isso, nem sempre um pai autoritário
ou um estado com leis muito severas vão impedir o delito.
Quando digo função paterna, refiro-me à
posição que o pai deve assumir na família
e na sua falta, a pessoa responsável por ela, mãe,
avós. É uma função muito específica
que inclui proteger mas que exige principalmente fazer cortes,
colocar limites. Se estes não são impostos pela
família é possível que o jovem vá
buscá-los nas leis do estado.
Diálogo,
atenção, elasticidade, o que significa colocar
limites firmes mas não rígidos. Não se
trata de ser amiguinho do filho , mas de ouvi-lo, apoia-lo
quando necessário e colocar limites claros e precisos
nas situações exigidas. A liberdade pode ser
confundida com menosprezo, desatenção e levar
à autodestruição.
Os
pais, professores, psicólogos precisam ter bem claro
que não somos iguais, cada um ocupa um lugar que deve
estar bem definido: pai precisa estar na função
de pai, professor na de professor . O filho - cada filho numa
família, cada aluno numa escola - vai ocupar um lugar
que é único. Por isso nós, educadores
(digo nós porque entendo que, na condição
de cidadãos adultos, somos todos educadores) devemos
estar atentos para o lugar que cada criança ou adolescente
está ocupando. Um adolescente , por exemplo, pode vir
a escolher inconscientemente o lugar do anti-herói
se o lugar do herói já foi destinado a outro
filho.
Há algum tempo entrou em moda chamar adolescentes de
aborrecentes. É preciso analisar o perigo desta "brincadeira"
, porque alguns podem se identificar com esta marca e passar
agir como verdadeiros aborrecentes.
Se a identificação com a figura paterna é
débil, o jovem pode identificar-se com outros significantes
: rebelde, agressivo, preguiçoso, burro, desorganizado.
Também vem ocupar este lugar a figura de ídolos
do esporte, da música, do cinema , da televisão
com todos os benefícios e males que isto comporta.
Quando a palavra plena, significada, escapa ou não
advém, cria um vazio que pode ser ocupado por qualquer
outra coisa: uma doença, um ato violento, o silêncio.
Hoje, para o delinqüente, não basta apenas roubar,
ele precisa deixar uma marca registrada, algo mais violento,
que utiliza como assinatura. Marca registrada, de uma figurinha
carimbada. Esta passa a ser a identidade de uma criança,
de um jovem, quando não encontra sentido naquela que
lhe é oferecida.
Outro sinal da necessidade da marca são as tatuagens,
piercings, brincos que os adolescentes passaram a usar recentemente.
Para estabelecer uma identidade própria e desprender-se
dos laços familiares, o adolescente procura pertencer
a um grupo. Assim como no início da civilização,
na passagem da animalidade à cultura os homens se uniram
em grupos para enfrentar as dificuldades, o jovem revive este
tempo mítico da humanidade em sua conduta atual. É
essencial que ele pertença a um grupo , ainda que pequeno,
para estabelecer laços sociais mais amplos, além
da família.
São passos necessários para que a identidade
se estabeleça. Porque pode ser que a adolescência
não surja nunca. Por exemplo: crianças-modelo,
sem pensamento próprio, sem liberdade, que seguem o
caminho que lhes é apontado (e toda sua vida sucede
em vez de fazê-la suceder).
Joaceri
Merlin
Palestra realizada no Colégio Estadual Oswaldo
Aranha no Encontro de Pais, Alunos e Professores
Outubro de 1999
|